sábado, 25 de dezembro de 2010

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Brincadeira de menina

Era uma vez, uma menina que passava a vida a contemplar. E da vida, ela contemplava o que cabia no microscópio. Tinha um olhar pequeno, curioso e colorido. A menina nem sabia do seu olhar porque o que dele lhe interessava ela não olhava, apenas saboreava. Assim ela passou a vida, até que em uma de suas idas ao Doutor, a menina espantou-se ao ser, por ele, percebida. Doutor notou o olhar da menina. A menina, depois de ver os olhos do Doutor, saiu olhando diferente.E, a partir da amplidão do próprio olhar, a menina amadureceu. Pura metamorfose de si mesma.  Brincou de laboratoriar com os próprios sonhos. E, sonhando a menina que fora, pôde tornar-se a mulher que é! E depois cresceu.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Preciosa justeza




A menina dos balões encantados - Sandra Guinle


Pairava sobre a mesa, um livro com a história da beleza
Reunidas em torno dela, três pequenas realezas.
Cada uma dona de sua própria inteireza
Deixaram perdido no ar um discreto cheiro de grandezas.

No intervalo das pequenas gotas de precisão
Era possível ouvir lhes bater no peito o coração.
A precisa emoção da justa posição.

Eis a beleza da preciosa justeza.




quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Interferências do ar

Ciranda Mágica - Sandra Guinle


Começamos a pensar nas despedidas para delas cuidar.
E nessa aterrisagem do fim voltamos a vê-los brincar.
Em busca da melhor aterrisagem nos perguntavam, a todo instante, como voar.
Partimos juntos e fomos sobre a tal pergunta pesquisar.
Estavam em pleno voo enquanto nos pusemos a observar.
Encontravam-se lá as meninas na ponta dos pés a saltitar.
Os meninos faziam as capas balançarem até dançar.
Juntos subiam na jabuticabeira para, depois, de lá de cima pular.
E para as tentativas mais ousadas, teve até susto de fazer a professora perder o ar.
Mas entre fadas e heróis ainda havia muito que buscar.
As pistas de carrinhos nós fomos pegar...
Muita força fez o carrinho derrapar.
Alta velocidade o fez, num belo voo, planar.
Empurrá-los com força só fez o desafio aumentar.
E a cada voo levantado era necessário para a pista regressar.
Juntos fomos descobrindo as diferentes possibilidades de aterrisar.
Teve até uma turma que quis escrever um livro para uma história contar.
Maneira sabida de registrar...
Passo importante para o conhecimento transformar!
E na transformação, o imóvel disco de madeira começou a girar.
Os bichos, antes presos no papel, quiseram se libertar.
Mas pra todo esse movimento foi preciso a força na mão empenhar.
Os sorrisos eram de fazer a nossa retina se enfeitar.
A lente da câmera só fez a imagem em nosso ouvido sussurrar:
Eram das crianças todo aquele pensar!
Às professoras coube a arte de revelar.
E a melhor revelação fez a consciência documentar:
Embriagadas pelo valor de ensinar.
Elucidaram já não serem mais as mesmas que eram antes de tudo brotar.
A proximidade do fim as trouxe também a perspectiva de recomeçar.
Sabendo as crianças como aterrisar, poderiam agora com liberdade voar.
E no meu coração, estejam certos, ficará para sempre um carrossel a rodar!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Praticando a teoria ou teorizando a prática?

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Angústia e só, poderia ser simplesmente.


Bastaria- me a solidão dela remanescente.


Aconteceu- me diferente: leitura subjacente.


O coração? Decrescente.


Tudo em forma de uma pequena escrita indecente!

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Diário de bordo (Confissão)

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Desde ontem as confissões têm-se feito insistentemente presentes no meu caminho.
Não as minhas.
Essas eu farei agora.
As confissões acontecidas, porém, entrelaçaram-se nos acontecimentos da minha própria confissão.
A partir de outras, com a de vocês, mora a minha.
Eu.
Desde que me mudei, dentre as aquisições que mais fiz para casa, são as lâmpadas que encabeçam a lista.
Eu sempre soube sob qual luz gostava de morar, mas demorei em aprender a escolhê-la.
E depois de escolhê-la, em buscá-la. Eu demorei, mas cheguei.
Bem na época.
Eu confesso:
Hoje o amor correu pelas veias, a felicidade oxigenou o cérebro e o cansaço rendeu o corpo.
Sem planejamento algum, me vi sentada com três pessoas essenciais na minha vida. Estávamos juntas na sala da minha casa e éramos quatro. Mais a Maria.
E olhá-las juntas, tão perto e tão de perto teve um sabor inexplicável.
Algo como deixar de ser uma ilha imóvel para desfrutar da liberdade de uma baleia.
Ainda que ela carregue certa densidade, movimenta-se com justa liberdade.
Carrega consigo apenas o tamanho necessário.

Boa noite.




quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Insônia

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É assim quando o sonho encontra a realidade
Primeiro vai o sono
Depois vem a felicidade


Pode ser de manhã, pode ser de madrugada
Amarelo de sol ou azul de noite estrelada
No fim da rua começa a estrada


Embriagada de cansaço do corpo a alma repousa calma
A palavra, desenhada de pensamentos, está calada
No vão entre o ruído e o silêncio sigo acordada.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Aniversário


                                                                             
Certamente primavera.
Talvez seja essa a primeira que em minha vida se anunciou.
E em seu breve anunciar, floresceu.
Em um instante qualquer, fora do tempo, dentro da época.
Como se fosse colheita da alma que amadureceu.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

DE MUDANÇA



Carrego comigo:


Muitas recordações e poucas memórias
Muita hereditariedade e pouca herança
Muitas experiências e poucos fatos


Pequenas escolhas e enormes concessões
Pequenos passos e grandes tombos
Pequenas pausas no meio de muito trabalho


O silêncio dos dizeres
O calor dos bons afetos
E o cheiro do amor


A perda de tempo que me faz preencher a vida
A boa companhia que me faz minha solidão
E o porta xampu que trago desde que morava com os meus pais!

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A demora que na rapidez mora

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Era uma vez, uma menina que, enquanto se fazia psicóloga, acabou por se tornar mulher.

Rápido.

Com o rosto emoldurado de largos cachos, que só lhe faziam a beleza realçar, ela cresceu rápido demais.

Demais.

De acordo com a urgência que lhe trancava o peito, mal percebeu que as linhas retas moravam dentro das formas espiraladas que trazia pendurada na cabeça. Seus cachos eram muito mais que um simples capricho da genética.

Capricho.

Movimentando-se vigorosamente, passou desatenta ao valor das curvas. Já estas, por sua vez, nunca mais se esqueceram dela.

Esquecimento.

A mulher, sem saber, era obstinadamente perseguida pelo próprio destino.

Próprio.

E apavorada com aquilo que já não mais se escondia, passou a alma a vazar-lhe pelos poros.

Dor.

Antes fosse pelos olhos...

Lágrimas.

Ela nem sequer suspeitava que a verdadeira demora de sua vida, a única de todas pela qual poderia acertadamente se lastimar, era a constatação de que ela precisava, isso sim urgentemente, aprender a chorar!

Encontro na hora.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Respostas?

Quando o amanhã vai chegar?
Destino ou livre-arbítrio?
Por que nunca fizemos isso antes?


O que da vida, em vida, é preciso deixar morrer para continuar a viver?
Tempo?
E agora? O que eu faço?


Por escolha ou pela falta dela?
Deus?
Qual o melhor caminho?


O que lembrar e o que esquecer?
Sabor do saber ou saber o sabor?
Quando o ontem vai passar?

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Eleições

http://rodrigoconstantino.blogspot.com/2009/12/serra-ou-dilma-escolha-de-sofia.html

Achei um desperdício um texto tão bem escritos pra ideias tão pouco novas.


Até ele começar a falar mal do PT tinha a esperança de que abrisse o texto no sentido de colaborar para que nós eleitores pelo menos nos déssemos conta do quanto ainda precisamos aprender a votar.

Queria MUITO um texto tão bem escrito desse com ideias compatíveis, entende?

Eu ainda não tenho ideia pra quem darei o meu voto, mas tenho me atrevido a ler sobre mais de dois candidatos. Por que será que tudo acaba sempre entre PT e PSDB? E se essa fórmula continua funcionando, pra que eles, justamente os políticos, irião nos propor algo diferente?

O autor acaba mordendo o próprio rabo. Eu não consigo entender o que há de libertário em seu artigo... Talvez seja a liberdade de falar da própria posição política?

Ele escolhe para abrir o texto uma frase belíssima: "O maior castigo para aqueles que não se interessam por política, é que serão governados pelos que se interessam", mas para por aí.

Tudo o que vem adiante fala de um eleitor que simplesmente vota em um partido para impedir que o partido que ele odeia chegue ao poder. Fico me perguntando: em quem, ou em o que ele vota mesmo? Vota pelo melhor ou tão somente para evitar o pior?

Isso é entender de política? A meu ver, que não entendo abolutamente nada do assunto, ele entende de PT e PSDB.

Em um outro momento o autor traz uma outra frase: Tudo que é preciso para o triunfo do mal é que as pessoas de bem nada façam (Edmund Burke) .

Fico pensando se, para esse autor, evitar o mal já seria uma espécie de'"ação do bem". Até entendo quão bacana é ele se posicionar, mas de verdade, eu penso de um jeito muito diferente disso.

Tenho certeza absoluta de que não entendo absolutamente nada de política, mas imagino que ela pode ser bem mais inteligente do que vem se apresentando e bem maior do que as rusgas intermináveis entre os dois partidos que se apresentam sempre como principais concorrentes.

Essa mudança jamais será proposta por aqueles que estão no poder, sejam eles quem forem. Se é preciso alguma mudança, não seríamos nós os mais indicados a iniciá-la?

Sem voto não há eleição, simples assim.

Acontece, porém que iniciar uma mudança dá trabalho. De verdade. E isso quase ninguém quer. É mais fácil fazer um relicário dos podres do partido que se odeia e depois escrever um puta texto desse para declarar, com notável competência ( em escrita, é claro!), que pelos mesmos motivos votará no outro.

Sei lá, talvez eu entenda menos ainda de política do que imaginava. De qualquer maneira prefiro me posicionar de outra maneira: tentando verdadeiramente aprender sobre.

domingo, 25 de julho de 2010

Felicidade

Enquanto nasciam nela essas palavras, surpreendemente, deu-se conta do quanto não tinha palavras sobre a felicidade. E, que não as tinha, por um motivo obvio: nunca tinha, de fato, estado com ela. Carregava, ao longo de sua história vivida, o peso de concepções equivocadas construídas  durante o percurso realizado, e sem o qual, entretanto, ela jamais conseguiria ser - se realmente feliz. Só lhe restava continuar o que há muito tinha começado. Num primeiro momento, a felicidade soou-lhe estranha. Tão desconhecida, que ficava impossível nela reconhecer-se. Sim, ela já havia sido feliz, mas dar de cara com a felicidade era diferente de ser feliz, pois se tratava da liberdade da escolha de ser. Entendeu, verdadeiramente, nesse momento, aquelas frases clichês que dizem que só tem a felicidade quem vai buscá-la. A verdadeira felicidade é árdua e exige esforço por parte daqueles que a perseguem. Sua dimensão, no início, amedronta. É um caminho sem volta e, que você só sabe que vale a pena, depois de adentrá-lo. Para fazê-lo, porém, é preciso arriscar-se e, para correr o risco é preciso coragem, porque o medo já se tem naturalmente. Foi assim, completamente ao seu tempo, que ela se permitiu começar. E, como não poderia ser diferente, começou pelo começo. Deixou cair, dolorosamente, o pseudo-ser-si-mesma para assumir a ignorância de si. Foi somente ao se deparar com seu insignificante tamanho, que se deu conta de sua tamanha amplitude. Apavorou-se, só não se sabe ao certo, se por saber de si tão pequena ou tão ampla. Admitiu a si mesma a nova possibilidade que se apresentava. Foi. E, sem ao menos ter gestado uma criança, mas grávida da própria alma descobriu a felicidade da dor de parto: era o que doía que fazia existir e era, só depois de viver a dor até o fim, que ela delicadamente viu-se a tocar naquilo que mais originalmente lhe pertencia: o começo da história.
Acalmou-se, enfim.
E acomodou-se com a felicidade.




terça-feira, 20 de julho de 2010

Ressaca

...


Quando você encontra com uma pedra sozinha,ela é só uma pedra.
Quando você se depara com uma multidão de pedras, elas se transformam em história.

Quando você fica frente a frente com um homem sozinho, vê um único homem.
Mas quando você se vê como parte da multidão, compreende a humanidade do homem que você é


segunda-feira, 5 de julho de 2010

Palavras



E antes mesmo que eu pudesse ouvi-las, já as escutava.
Elas foram chegando, simplesmente.
Não precisavam exatamente que eu as quisesse, bastava ser-lhes a portadora do silêncio que elas, já antes de mim, habitavam.
Uma a uma construíram-se para depois contarem-se.
Desta vez com o coração calmo e a alma tranqüila.
Sem impactos, sem furor. Nem de ódio e nem de amor.
Construíram-se em frases com a mesma precisão com que se levantam as paredes de uma casa.
Misturaram-se, com impressionável delicadeza, ao tempo da espera que lhes foi ofertado.
Encontraram-se as palavras reunidas em si mesmas e a partir delas fizeram nascer outras.
Eu, refém.
Imobilizada pelos sons mudos pronunciados sem permissão, me rendi.
Eu, rendida.
Ouvindo-lhes sobre a construção, passei eu mesma a lhes servir de morada.
Encontrei-me com palavras esquecidas.
Encostei-me com cautela naquelas que ainda não foram vividas.
E foi durante um sonho que elas se materializaram podendo ser ouvidas!
Palavras?

domingo, 30 de maio de 2010

O destino de Patrícia

Patrícia só pôde ser ela quando, de repente, foi outra.
Outra de si mesma.
A mulher demorou a nascer, mas quando o fez, pronunciou-se com firmeza admirável.
Patrícia vestia, na melhor versão de si mesma, jeans e camiseta branca.
Algo nela cheirava a terra...
Era bom assistir Patrícia!
Invariavelmente fazia rir a todos que se aproximavam.
Ela tinha o abraço dos bem amados e a temperatura dos bons amantes.
Ao completar seus 30 anos, Patrícia se foi. E depois nasceu.
Tinha no olhar o brilho de poucos e, embora estivesse longe de ter tudo o que desejava, tocara, quase sem querer, nas estrelas penduradas no céu.
Patrícia sabia ter encontrado seu caminho.
E nesse dia saltou-lhe da boca um sorriso tão profundo que ela teve marcado pra sempre em sua saliva o inconfundível sabor da plenitude.
E plena da incompletude que lhe fora conferida deu de cara com a vida: e agarrou-a.

sábado, 15 de maio de 2010

Patrícia

Patrícia tinha a leveza digna dos que carregam poucos arrependimentos.

De presença despretensiosa, cheiro suave e cor natural, ela fazia marcar na areia as próprias pegadas com uma suavidade que podia soar agressiva àqueles que não tinham coragem de pisar o próprio chão.

Caminhava em frente. Sempre.

Patrícia nunca fazia o que tinha quer ser feito e pagava caro por isso: era desesperadamente alegre de tanto fazer o que queria fazer.

Era simples e bonita. Mas também era um pouco outono, um pouco primavera.

Tinha um sorriso indecente e um olhar atrevido.

Agradava-lhe, e muito, preencher o olfato de bons odores.

Tinha também verdadeira obsessão pelas cores que reluziam debaixo da luz amarelo ouro do sol. Ah, essa luz...

Patrícia ia e vinha no tempo como bem entendia.

Insubordinável, ela amava devagar e fundo por apreciar movimentos lentos e saborosos.

No corpo honesto trasbordava-lhe, discretamente, a alma transgressora.

Mais fazia do que pensava, mas por diversas vezes se pegou pensando no que fazer.

Ela era como o calor que diferencia a brisa fresca da gelada, portanto seu significado era quase imperceptível a olhos nus.

Sem nenhuma sombra de dúvida, o melhor de Patrícia era o som da risada quase pronográfica com que ria de si mesma.

Para encontrar Patrícia bastava procurá-la.


PROCURA-SE  POR PATRÍCIA!

terça-feira, 27 de abril de 2010

São Paulo, 27 de abril de 2.010.



Amiga querida,



Reencontrar seu olhar hoje me inquietou novamente. Eu sei, e muito, por onde você está passando. E talvez só o saiba por ter tido, na hora em que as paredes da minha casa sumiram, uma amiga ao telefone. Nem sei se já contei a ela o que aquela ligação, naquela hora, me representou. Mas o que nos importa agora é que ela ligou. As paredes desmoronavam lentamente, uma a uma, mas restou nas mãos o telefone. Pra pedir um socorro, que fosse... Dali em diante meus olhos perderam o brilho. Lembro-me de ver dias de sol completamente cinzas. A janela fechada, a alma perdida, o coração fraco, a morte! É só assim que a gente renasce: morrendo. Mas morrer dá certo desespero, sabe? Então você nega e fica ali, feito cinza. Acho que é por isso que eu não gosto desta cor. Só que eu sou teimosa de dar medo e desistir é um conceito que eu tento diariamente incluir no meu repertório, mas a minha própria teimosia não permite. Fiquei lá estirada no escuro até que um dia, depois de muita chuva os dias de sol foram voltando, vagarosamente, a terem o devido brilho. E eu, depois de longo tempo abri uma fresta da janela para olhar. Desde este dia, venho reaprendendo a caminhar. Só que agora deixando pra trás pegadas legitimamente minhas. As pernas algumas vezes ainda se ressentem e cansam. Só que agora elas têm força suficiente para sentarem-se antes de cair.Talvez este seja, o motivo pelo qual eu tenha errado a porta ontem e dado de cara com você e tenha feito o que eu fiz. Eu posso e vou segurar a sua mão na escuridão até você conseguir abrir, pelo menos, uma fresta da janela novamente. Beijo grande.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

São Paulo, 26 de abril de 2.010.


Querida amiga,



Estou mandando esta carta para dizer-lhe algumas palavras.
Eu já chorei o choro que você chorou hoje.
Reconheci nos seus olhos a dor que já doeu em mim.
Por isso, se quiser, pode contar comigo.


Eu gosto muito de você e, mesmo que você não chame, estarei sempre por perto.
Não te perguntarei sobre nada. Sei como falar torna-se um ato de extremo esforço nesse momento.
Mas, ainda assim, estarei com os ouvidos sempre abertos para qualquer som emitido pela sua delicada voz.


Na hora do tombo, a gente dá com a cara no chão e chora porque acha que não vai saber ou conseguir levantar.
Depois a gente se conforma de já estar no nível mais baixo que nos é possível chegar, e relaxamos.
Ao relaxar descansamos.
Acabamos por ficar tão familiarizados com o chão que logo começamos a perceber que é possível se movimentar.
Com poucos movimentos fazemos deste mesmo chão, o primeiro degrau para se apoiar e levantar.
Uma vez de pé, reaprenderá a andar. O processo é lento e trabalhoso, mas aos poucos, irá se dando conta das pernas que têm e dos possíveis passos que poder dar.
Talvez eles sejam menores do que, de fato, os imaginava. Mesmo assim se sentirá estranhamente livre. E feliz!


Nós já somos companheiras de viagem, mesmo que nunca mais falemos sobre o assunto.


Estou por perto.

sábado, 24 de abril de 2010

O varal de Patrícia







Patrícia estendia roupa com apreciável zelo.
As marcas vividas naquelas roupas haviam se diluído na água que a máquina, sem pensar, escoou.
Restara-lhe na mão apenas peças limpas, sem marcas desnecessárias.
Abaixou o varal.
E colocou uma a uma todas as peças lavadas para secarem.
Da melhor maneira que lhe foi possível, planejou o arranjo cuidadoso de cada uma delas.
E, enquanto o fazia, regozijou-se no cheiro da novidade.
Ao terminar, levantou o varal e se foi.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O banho de Patrícia





Foi só ao sair do banho, que acabara de lhe devolver a pele umidamente esterilizada, que Patrícia deu-se conta.
Deixara de tomar o banho da noite anterior. Mas não por um motivo qualquer.
Patrícia sentiu, sob o calor da água de seu banho, escoar o cheiro dele.
E, ao não tê-lo mais em si, deu-se conta.
Não havia, em momento algum, negado o banho.
Tinha sim, com propriedade, escolhido dormir no cheiro que até aqui a alimentara.
Esteve leve ao longo do dia: no corpo e na alma.
Leveza demais, que de tão leve quase deixou Patrícia encostar, com as pontas dos dedos, na alegria.
Amedrontou-se sem pudores.
Simples assim.
Depois da alegria tocada, quem viria ela a ser?

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Mesmo assim

(Mulher chorando - Pablo Picasso)



Mais um dia nasceu. E mais uma vez morri na noite que se escondeu para que ele aparecesse.
Com o peito ardendo em chamas decidi seguir mesmo assim.
Coloquei na mala o ouvido que me sobrou depois de tê-lo tirado o som da sua voz.
Respirei gotas de ar com o nariz que, por não ter mais seu cheiro, se desencantou.
Vesti a pele dolorida pelo ferimento do abraço que faltou.
Escolhi tirar os sapatos e seguir descalça com a única liberdade que restou.
Pés na terra. Uma espécie de tentativa de evitar a explosão.
Encolhida nos olhos encharcados  que não me deixaram ver o caminho.
Eu fui mesmo assim.


Só não se sabe pra onde...

?

Silêncio,






Medo...





Lacunas!





A dor.







Partida?





Se você for eu vou.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A costureira

Era uma vez uma costureira.
Porque ela se fez costureira não se sabe a resposta.
Reside nesta pergunta o mistério que não sabemos se um dia veremos desvendado.
Toda e qualquer tentativa de resolução, até agora, não passou de mera suposição.
Para que se fez costureira, talvez um dia, ela alcance a resposta.
O fato é que ela costurava incessantemente. 
Mas só depois de um tempo adiantado, deu-se conta de costureira ser.
Disfarçou-se demasiadamente pelo caminho.
Quase se perdeu entre pontos inusitados, mas salvou-se a tempo por ter estado sempre presa a um único fio; a ânsia de ser.
No dia que finalmente pode revisitar-se sem reservas, conseguiu desembolar o novelo para fazer uso do imenso e indispensável fio que necessitava para a nova costura que pretendia fazer.
Desesperou-se ao se deparar com o trabalho de uma vida toda desfeito.
Fios soltos para todos os lados.
Chorou ao repassar os alinhavos, mas entregou-se por fim.
Entre lágrimas, deu-se conta da agulha que na mão lhe sobrara.
Num dia despretensioso, de um tempo com tempo, encontrou-se com mais duas artesãs.
Pôs- se de pé e fez seguir.
Embora fizessem uso de diferentes matérias primas, as três artesãs buscavam uma mesma obra de arte como produção: reinventar-se.
Foi assim, em boa companhia, que a costureira encorajou-se a recomeçar: pôs-se a costurar com os fios soltos sua nova invenção.
De tanto costurar, deu-se conta, um dia, que costureira era e que justamente aí, na simples descoberta, habitava aquilo que por tanto tempo ela procurava ser.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Oi Mari,



Estava com saudades e fiquei feliz em receber sua carta hoje.

Suas notícias soaram-me um tanto relaxante. Deixaram-me quentinha e confortável.

Só hoje, depois de ter lido sua carta, fui aos poucos me apropriando da dimensão das escolhas que a gente faz na vida.

Eu não tenho, nesse momento, como encontrar as palavras precisas para dizer quão contornável foi poder ler-me nas suas. Obrigada, de verdade.

De fato trabalho alimentando a alma, não vendendo-a, mas por continuar escolhendo a mesma escolha a cada novo dia, eu também vou aprendendo que para isso sempre há de se deixar as outras tantas escolhas que não foram feitas..

Acordo, e uma das primeiras coisas que me vêm à cabeça é qual a vida que eu quero pra mim.

Ainda que apenas intente idealizar essa questão, sou diretamente lançada ao que de fato, para mim, é na vida valoroso.

Nossa! Uma canseira danada... Esforços que não acabam mais. Viagem que eu não vejo o fim.

Esforço existencial mesmo sabe?

E eu também queria, além do que quero todos os dias, algumas das outras escolhas  que deixo de querer quando faço esta. Movimento intermitente de aprender “abrir mão” para simplesmente ser o que eu quero ter pra minha vida.

É disso que eu vivo amiga.

Uma escolha diária, muito trabalho e eu na recompensa.

Gosto do outro. Tanto, que pensei em tempos passados, que os valorizava mais do que a mim.

No caminho eu já aprendi que somente seremos em companhia do outro. Tanto quanto eu for o melhor de mim, o melhor do outro a ele oferecerei..

Percebi que em todas as instâncias somos nós, os únicos realmente capazes de nos fazermos “sendo” realizados.

Se o mundo parasse, meu último pensamento seria: apesar de não ter assistido ao filme que eu tanto queria, apesar de ter dado um super furo com a Pati hoje e apesar das muitas coisas que deixei por fazer, até hoje eu fui feliz!

Muito obrigada pela companhia durante a trajetória.

Fica claro pra mim o quanto a proximidade anda desligada da necessidade de estarmos fisicamente perto.

Bons dias de Mariana pra você.

Beijo grande,

Thais

sábado, 10 de abril de 2010

São Paulo, 9 de abril de 2010.



Meu querido diário,


Foi difícil levantar da cama hoje, sofri à beça.
No intervalo consciente entre o dormir e acordar matinal, o quentinho da cama e as vozes das crianças que já povoavam meus ouvidos, eu consegui tirar o cobertor.
Estava cansada, a semana foi exaustiva...
Frio.
Mas o que eu tinha pela frente era como um encontro com a força mais forte que há de mim em mim: meu trabalho. E nesse caso a expressão “ganha pão” não basta. Talvez “alimento da alma” lhe sirva melhor.
Caminhei a caminhada de todos os dias. Pensei pensamentos estranhos e infinitos.
Cheguei ao destino previsto na hora exata.
Encontrei-me com as crianças conhecidas para desbravarmos juntos um dia que nunca existiu.
Durante a nossa roda de conversa inicial, ao ouvi-los, lembrei-me da belíssima aula que tive sobre autonomia e lembrei-me, em seguida, o quanto amo trabalhar com educação, principalmente por ter assim a possibilidade de me reeducar a cada dia.
Retomei a concentração e voltei a ouvi-los. Estava tudo sendo dito e tudo o que eu precisava fazer era saber ouvir.
Fiz.
Tudo bem que o cobertor tivesse ficado pra trás. Não me faltou calor um minuto sequer.
Calor de vida, porque eu trabalho justamente na ponte por onde as crianças passam quando vão de suas famílias para o mundo.
Eu, de lá de cima  da ponte, olho de um lado e vejo o mundo que temos. Olho para o outro e vejo o mundo que eu quero.
Do lado do mundo que eu quero eu compartilho da vida com pessoas que podem fazer a diferença no mundo que temos. É pra lá que eu vou... Atrás do muro azul.
E a cada coisa que pretendo ensinar-lhes é necessário que eu aprenda ser.
Entende querido diário, que eu não posso parar?
É necessário que eu aprenda ser!
Elas aprendem o que eu ensino, mas compartilham do que eu sou.
Durante a travessia da ponte, passam um ano de suas vidas comigo.
Enquanto estou lá com elas, os vejo construírem seus próprios olhares, estabelecerem relações de confiança, experimentar-se enquanto pessoas, que ainda são pequenas, mas um dia crescerão.
Elas aprendem a subir na árvore debaixo dos meus olhos, aprendem a colocar os sapatos ao meu lado e depois de tanto eu perguntar se estão satisfeitas após o lanche, um dia as vejo levantar dizendo por elas mesmas que o estão.
Eu lhes ensino a levantar depois de cada tombo, lhes ensino a conversar para resolver os problemas e a confiar, lhes ensino sobre o respeito, mas não quando falo sobre ele e sim a cada instante que o pratico.
Depois elas descobrem que, do outro lado do muro azul, logo após cruzar a ponte há ainda um mundo inteiro a ser reinventado.
E é pra lá que elas vão. Para fora do muro azul...
Só que elas vão tendo passado pela ponte e, portanto por mim. Deixam-me, invariavelmente, melhor do que era antes de conhecê-las e pretendo, com a força da minha alma, que levem consigo a lembrança de terem estado com alguém que foi, com elas e para elas, o melhor que podia ser.
É assim, querido diário que eu começo todos os meus dias. Com a possibilidade de aprender tudo o que eu ainda não sei e vir a ser alguém melhor do que aquela que vi dormir na noite anterior.
Sobra-me pouco a mais para querer da vida!



quinta-feira, 8 de abril de 2010

Despreparo

Volpi, Composição com formas circulares.

Eu quero tempo de escrever, mas para isso preciso ter tempo para gestar.


Sim, lógico que sim. Eu quero gestar!


Por que ainda não o fiz?


Falta de espaço pra gerar e para gerar é imprescindível disponibilizar.


Claro que sim... Eu realizo o espaço.


E falta o quê?


Achar o tempo de partir em busca de mim.


Deixar de dar o meu tempo a você.

domingo, 4 de abril de 2010

Ela, mais uma vez.

O sonho (1932), Pablo Picasso


Agora não se tratava mais de somente um apreço pelas formas arredondadas.
Ela, definitivamente, as incorporara.
E tal ocorrência só era possibilidade viva àquelas que de fato eram mulheres.
E ela só podia ser mulher.
E estava entorpecida do próprio amor que carregava.
Pensou em se auto- acolher em algum lugar que fosse a origem.
Ela não encontrou. As origens são assim somente no momento em que dão.
Depois da origem vem a intersecção.
Imaginou-se contraída em forma de círculo.
Esquentou-se do próprio sangue.
Ela riu sozinha no momento que sucedeu ao desespero.
Esteve fora por alguns instantes e depois retomou.

                                                   

segunda-feira, 29 de março de 2010

Declaração

Tanto mais me ponho a ensinar, mais e mais descubro que só tenho a aprender.


Tanto mais me dedico a amar, mais aparece em mim uma vontade nua de amada ser.


Tanto mais caminho na direção, tanto mais me perco.


Tanto mais perdida, mais me encontro.


Tanto mais escrevo, mais quero escrever.


Tanto mais me leio, menos quero te esquecer.

domingo, 28 de março de 2010

Simples

Esses dias, li algo sobre a simplicidade de se poder ver uma árvore torta e saber que aquela é a maneira mais verdadeiramente simples de vê-la.
Tentar mudar o ângulo, além de complicar não a faria ser uma árvore reta.
Endireitá-la seria matá-la.
Eu li e em seguida caí.
Fui lançada em direção a uma viagem em que a linha de chegada se desenhava no exato ponto de partida.
Percurso longo, de exaustas tentativas, para fazer caber na justeza da solidão, a imensidão do ser.
Mover-se em direção a liberdade de aprender e das equivocadas ilusões se desfazer.


Crescer?
Re – aprender.


Da antiga aprendizagem a liberdade para escolher e das tardias consciências a permissão de fazer.
De você para você se recolher e sem misturas ver o outro a sua frente renascer.
Na nova clareira da escuridão se refazer e assim, voltar a aprender.
E seguir a viver...

sábado, 27 de março de 2010

Ela

Ela tinha o estranho hábito de se encantar pelas profundezas, e este era o motivo óbvio pelo qual nunca se deixara seduzir pelas grandiosidades da vida.
Ela só poderia ser mulher.
E só poderia preferir as formas arredondadas.
Seus olhos?
Preferiam sempre o “bom e velho olho-no-olho”. Nem um pouquinho pra cima, nem minimamente para baixo.
Ao justo alcance simplesmente.
Era capaz de mover o corpo inteiro para não perder o foco (para as crianças joelhos ao chão, aos jovens, aos loucos e aos inimigos a ajustada altura e aos velhos sua sincera reverência), o que não lhe diminuía em nada os espantos que tinha a cada novidade da vida.
Ela não era tão nova quanto parecia e nem envelhecida, o suficiente, para deixar de acreditar no amor.
Em movimentos precisos e vagarosos ela se colocava adiante pé-ante-pé.
Poder-se-ia até dizer que ela caminhava, não fosse sua inabilidade em manter a linha reta.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Segredo



Ele era dela, mas a constatação do fato não era, definitivamente, o suficiente para que fosse reconhecido.
Ela tinha o segredo agora, mas não o tivera desde sempre. Foi só após a citada revelação que ele pôde enfim, mostrar-se em segredo.
Ele estava nela, mas tão secreto em si mesmo que era, precisou de outro alguém para desvendá-lo.
Ela entregou a caixinha fechada e a teve de volta entreaberta.
Segredo que era protegia-se da luz escancarada.
Por entre os pequenos raios de baixa luminosidade com que alguém clareara a caixinha agora, ela conseguira, por fim, deleitar-se na escuridão do segredo que iluminava...

terça-feira, 23 de março de 2010

Rotina

Não sei bem onde foi que o meu dia começou.

Estaria seu início no começo da noite de ontem?
Encontrar-se-ia seu principio no sonho acontecido no meio da noite dormida?
Quem sabe já estava acontecido na novidade desconhecida que o novo dia estampava?
O fato é que tudo de mais verdadeiro que posso, neste momento afirmar, é que levantei bem. Assim, sabe? Simplesmente bem.

Somente uma coisa a cada vez e um lugar a cada estadia.

Rotina orientadora, que situa e que acalma. Dia simples de experiências sensacionais.
Tempo com tempo, olho no olho, risos dos risos, amparo das lágrimas.
Almoço mediano e um chocolate especial de sobremesa.

Leituras. Rasas e profundas, chatas e divertidas, literais ou subjetivas.
A linha do horizonte vista com a alma e para a alma, já que o corpo encontra-se agora em estado de atenção.
Boas conversas, simplesmente estar sentada ao lado da minha Amiga (ainda que em silêncio e por pouco tempo), clareza de argumentos.

Retorno em boa companhia. Eu gosto de gente!
Dia de rotina feliz!

domingo, 21 de março de 2010

Não é sempre

Não é sempre, mas às vezes:

Eu olho um sorriso e vejo um dente triste.
Eu escuto palavras, mas ouço o silêncio.
Observos meros ou únicos encontros.
Acho que luz em excesso me maltrata a visão,

Não é sempre, mas de vez em quando:

Eu olho pra saudade e vejo o amor,
Eu escuto palavras, mas ouço a voz
Eu procuro em mim a pista de um cheiro
E continuo lado a lado com a solidão

Não é sempre, mas vez ou outra:

Eu rezo.
Aproximo o suficiente para produzir o calor.
Desconstruo paredes.
Ofereço e acolho.

Não é sempre, mas foi uma única vez,
Eu vi meu amor perdido na multidão!

segunda-feira, 15 de março de 2010

Sinceramente?

Tem horas que eu simplesmente vou.
Depois eu canso e aí eu paro.

Parei!

E dessa vez, por incrível que pareça foi em frente a TV. Raramente faço isso.
Tem me faltado a paciência necessária.
Mas parei e assisti.
Era uma cena da Lilia Cabral (não me lembro o nome da personagem dela) com a sua filha Izabel (não me lembro o nome da atriz) e apesar de não entender absolutamente nada sobre artes cênicas arriscaria um palpite arbitrário que as interpretações pareciam bem um duelo de titãs.
O fato é que a Lília Cabral tentava “endireitar” sua filha, só que para isso destilava impiedosas e amargas palavras como se não houvesse outra possibilidade que não fosse a de destituir-lhe a alma.
No ódio estampado nos olhos de Izabel reluzia uma mãe cega. Completamente cega. Incapaz de ver um vestígio sequer da amargura com que ela impregnava o ambiente. Só a filha merecia!
Esta por sua vez, filha de quem era, não deixou barato, mas ainda que tenha respondido à altura, guardava com a tampa do baú escancarada uma única ressalva: era ela a filha.
Faltou um ouvido e ela gritaria pela sua ânsia de ser olhada, mas a mãe estava surda.
Não para a filha. Para o que dela ela não suportava ver inventado na filha...
Seria, de fato, a Izabel tão ruim?

Assim que a cena acabou eu me perguntei
E depois de me perguntar silenciei.
Silenciada pensei.
Sinceramente?

Um peixe fora d'água foi como me enxerguei!

domingo, 7 de março de 2010

Descarrego

Eu odeio fazer o que eu não quero quando o não quero é realmente uma falta de escolha.

Eu odeio quando tenho que desistir por ser esta a única saída plausível
Eu odeio não depender única e exclusivamente de mim.


Eu odeio ter um monte de coisas a dizer e ter que engoli-las, letra por letra
Eu odeio quando as coisas não acontecem do jeito que eu quero
Odeio quando o meu coração dói e sou obrigada esperar dia após dia para que a dor amenize
Eu fico puta da vida quando a vida me desobedece
Se ela é minha deveria cumprir o que eu mando
Odeio o tempo que desacelera e o dia que leva uma eternidade pra passar
Eu odeio sentir as amígdalas doer da raiva que eu não gritei
Odeio rir quando eu quero chorar
Odeio carregar o coração apertado dentro do peito
Eu odeio ter que seguir só quando gostaria de continuar acompanhada!


Eu odeio!!

sábado, 6 de março de 2010

O menino rei

Era uma vez um menino que sonhou em ser valente. E só de sonhar, assim se fez.
Tão valente que era, esqueceu-se de sonhar também com a outra metade da valentia, a fragilidade.
O menino acordou achando que era ele o único herói a precisar de um descanso e assim, sentiu-se menos herói.

Ficou pela metade. E com meio olho somente, o menino não pôde ver...

Não viu que só se é valente por inteiro quando também se é frágil.
Deixou de enxergar que sempre que encontrava com os outros heróis e eles estavam prontos pra batalha, era porque em algum outro momento já haviam deixado repousar em si sua fragilidade.
E por não perceber isso, justamente no momento em que estava com a melhor espada na mão, o menino achou que não era mais tão guerreiro.
Sentiu-se acuado e recolheu-se silenciosamente.
Temia mostrar ao mundo o que o mundo já sabia: todo herói tem o seu dia de menino.
Guardou as espadas numa redoma como recordação do herói que ele pensava não mais poder ser.

De tão humano o herói menino até se esqueceu que humano ele era.

Cresceu uma época  e depois de crescer reinventou-se sonhando em ser rei.
Sonhou um sonho muito bem planejado, mas esqueceu-se apenas de sonhar com o dia em que aprenderia sê-lo.

Sob as mais belas vestimentas, preparadas as pressas por habilidosas costureiras, o menino pensou que estava pronto e se pôs de rei o mais rápido que pôde.
No seu palácio divertiu-se sem pudores.

Acontece que como o menino não sonhara com o dia de aprender, não sabia que apenas meio olho estava a lhe servir. Mais uma vez ele não conseguiu ver.

Escapou-lhe das retinas a delicada condução que a vida lhe fez até esse indispensável passo para a realização do sonho: o dia de aprender a ser rei.

O menino encolheu.

Imediatamente o céu pôs-se a chorar.

Cada gota de chuva que caia impregnava o mundo de um lamento dolorido, pois este carecia de heróis e reis que fossem um pouco mais valentes e para isso só sendo tão inteiros quanto os homens corajosos que o mundo, lamentoso, aguardava quase impacientemente.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Ânsia




Acordei
Trabalhei
Protagonizei
Posicionei

Segui a caminhar
Pé ante pé até chegar

Sentei
Almocei
Levantei

Senti o coração a reclamar
Mão no peito pra amenizar

Entrei
Compartilhei
Movimentei

Parei para o fôlego retomar
E num mar de gente me vi a flutuar

Paguei
Sonhei
Aterrisei

Mais uma noite a estudar
A espreita o amor a resmungar

Encontrei
Voltei
Liguei

Vida em mim não há de faltar
Mas é preciso saber encarar

Retomei
Alimentei
Fechei

Não só o indigesto dá vontade de vomitar
O excesso também me faz o estômago embrulhar!

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Assim



Foi com imenso pesar que ela se despediu da história que se ia bem antes de começar.
Não era o tipo de final que costumava apreciar
Mas deu-se conta de que em certos momentos é necessário se conformar.


Não queria tudo, embora com pouco não conseguisse ficar
Desejou ardentemente vê-lo desabrochar
E afogada num mar de lágrimas pôs-se a gargalhar


Não havia do que se lamentar
Ela fez o que pode para que seu menino se deixasse amar
E o menino escolheu a solidão como par


Ela queria ouvir, mas ele não queria falar
E de tanto não falar, deu à verdade a possibilidade de se revelar
Ela tentou disfarçar
Até riu novamente para o fim driblar


Não houve como evitar
Estava ele a se pronunciar
As palavras ficaram presas no ar
E o coração dela a palpitar


Ela foi querendo voltar
Partiu porque não podia ficar
Seguiu porque não queria parar...





terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Digressão

Eu não sei se as minhas palavras me pertencem ou se sou eu quem pertence a elas.
Passei da idade de precisar me afirmar pra depois me aproximar.
Realizei que só de mim eu jamais seria eu.
Só a partir dos vocês que há em mim encontro o que de mais legítimo é meu.

Des-cobri a verdade da minha necessidade. Vivo lendo, mas só existo quando sou lida.

Não sirvo para as linhas retas. Odeio abdicar das delicadas nuances que só existem quando o movimento é circular.
Escrevo pra materializar....

Eu senti o ar!

Abracei com ternura a coragem que me faltou e, estranhamente, encostei-me à força do meu amor.
Entendi que para haver tranquilidade não é preciso felicidade.
No outro cômodo da sua casa mora a lealdade.
Deparei-me com uma estranha liberdade.

Foi só no limite que encontrei a amplitude.
Quietude.

De tanta desilusão eu até cresci.
Eu reinvento meus sonhos, e daí?