terça-feira, 23 de maio de 2017




Esperando.

A hora passar,

O dia acabar

O sonho acordar.

O sol levantar,

A chuva parar,

A dor sarar.






Há tempos ela vinha vivendo de sobressaltos. 

Eram pontuais, mas intensos. 

Levavam-lhe o coração à boca e a lágrima aos olhos. 

Destoavam da cotidiana alegria com que vivia seus dias e a entristeciam. 

Atravessavam repentinamente sua alma, apesar dela e de quem ela escolhera ser. 

Talvez, por isso, apesar de intenso, o coração lhe batia frio. Entre escassas alternativas, decidiu acolher em si a frieza que lhe fora plantada por outros. 

E acolheu, quase sem querer, também o desamor. 

Pela primeira vez.


quarta-feira, 17 de maio de 2017

Fragmentos de um livro que nunca existiu






O começo,

Um dia ela o amou e o quis como queria a si própria. Deu-se à ele, simplesmente. Deu-se em ser com ele melhor do que era só. Fez dele, com o amor que tinha, passageiro de si.
 
o meio,

Ele não compreendeu e a perdeu de vista, o que tempo depois ela viria  a se perguntar se algum dia ele havia sido com ela, mas o que ocorreu é que sem ele ela também perdeu-se de si. E essa foi a maior dor de todas.
 
 E o fim.

Ela doeu até morrer, mas também para a morte entregou-se. Esse foi o único jeito que encontrou de fazer-se viva.




segunda-feira, 9 de maio de 2016



          
Sobre a gratidão



 
Obrigada minhas amadas, por serem minhas filhas.
Obrigada por me impelirem a ser uma pessoa melhor todos os dias.  
É por vocês que eu mantenho viva a esperança de um mundo mais amoroso, com espaço legítimo para a diversidade e honestidade, o que também me faz viva.
É para vocês que eu amo cada criança que cruza o meu caminho, que tento não perder as oportunidades que tenho para ser gentil e que me dedico a saber de mim; para legitimamente libertá-las para que saibam sobre si.
 
É por vocês, que  me proponho ao exercício de lançar-me a mim mesma por mais riscos que isso possa oferecer. E isso me faz capaz de transformações jamais imaginadas, embora tenham sido desde sempre sonhadas...
 
Ser mãe de vocês é uma honra e um presente! 💖

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Flagrante



Ela tinha caminhado muito para chegar onde sentia-se estando.
Logo que chegara, dera-se conta de como até então estava apenas começando.
Ela, uma vez, sonhara-se mãe amamentando.


Absorveu-se em si mesma e aconteceu-lhe que não era mais a mesma.
Por onde então andaria o si depois de perder- se dela mesma?

Incomodou-se com a forma como tinha conhecido as palavras, e por não encontrar mais a si mesma naquelas com as quais um dia contou-se, desencantou-se delas.


Espaços infinitos de silêncio abriram-se em sua alma.
Silenciosamente acolheu no ventre sua menina.
E mesmo sem palavras, foi flagrada gestando.

sábado, 21 de abril de 2012

domingo, 18 de setembro de 2011

Rosemarian


Era algo exatamente assim que ela queria escrever


Mas as palavras, por si só, decidiram no silêncio viver


E, puseram-se, assim, a alma aquecer


Tal como a primavera ao florescer...

quinta-feira, 7 de abril de 2011








Eu sou professora.

Ontem fui a um encontro com Peter Moss, professor pesquisador da Universidade de Londres.

Antes de ontem eu não o conhecia e o que me levou ao tal encontro foi o seu tema: a Educação Infantil como Projeto Ético e Político.

Todas essas palavras são do meu mais sincero interesse.

Durante o encontro tivemos a notícia de que o projeto de piso salarial dos professores tinha sido aprovado. Causou certa emoção.

Nós, que lá estávamos, pensávamos juntos sobre a Educação das nossas crianças.

Era um inglês que nos falava e que, de alguma maneira, nos dizia que as nossas crianças também eram as crianças dele.

Compartilhamos, por algumas horas, ideias sobre como colaborar para que as minhas, as suas, ou as nossas crianças cresçam e se formem, principalmente, como bons seres humanos.

Nosso mundo está carente deles.

Falamos da escola não como espaço de reprodução da sociedade, mas como um lugar de reinvenção da democracia.

Falamos de diálogo, encontro e interdependência. Ninguém existe sozinho. Um ser humano se faz de outro, ou muitos outros, seres humanos. É só assim que perpetuaremos a espécie.

Eu escolhi ser professora interessada, de alguma maneira, no meu próprio bem estar: o de viver em um mundo mais digno.

Eu escolhi ser professora porque acho um privilégio, dentre todos os seres que compõem essa imensa natureza, ter nascido um ser humano.

Fui às crianças por que são elas quem mais sabem sobre o assunto. E para oferecer-lhes uma troca a altura, passei a esforçar-me, diariamente, para ser um adulto merecedor de conviver com crianças em sua mais tenra idade.

Ontem, de alguma maneira, eu zelei pelas crianças. Hoje, chorei por elas.

Eu ainda não tenho filhos, mas as crianças das famílias do Rio de Janeiro são também as minhas crianças. E foram brutalmente assassinadas dentro de uma escola, lugar onde eu também passo a maior parte do meu tempo e exerço meu maior entusiasmo pela vida.

Depois da notícia fui subitamente invadida por uma perplexidade muda.


































quinta-feira, 24 de março de 2011

Palavreando

Era atraída, no começo dos tempos, pela palavra justiça.
Trilhou o melhor caminho que conseguiu negociar com o próprio destino.
Deparou-se com o justo e suas cabíveis diferenças.
Soube melhor daquela palavra e felicitou-se por não pertencer à lei.
Pisou à frente do que sempre fora.
À ela coube um caminho maior: tempo de desembrulhar-se escancaradamente.
Só ao saber de si teria alguma possibilidade de saber do outro.
Quando encontrou seu lugar descobriu muitos outros. Dos outros.
Mesmo sem saber, ela sabia: nascera da ética.
Gostou muito das novas palavras e acabou transformando-se com elas.
Aprendeu da possibilidade e viu-se, assim, militante da palavra justeza.

quinta-feira, 17 de março de 2011


sonho poético - Martha Barros


Era tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo no coração,  que ela perdeu as palavras. Perdeu-se da palavra. Demorou a escrever porque não sabia ainda escrever sem palavras. Sem as palavras ficava só a sensação.  Desencontrou os acentos, e a falta da acentuação casou-lhe certa restrição. Foi preciso reencontrar o til para novamente ouvir o som do coração. Essa era a casa que ela, definitivamente, escolhera para habitar. Era esse o ritmo sob o qual pautava seu caminhar.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Lamento

Essa noite eu dormi mal. Acordei algumas vezes.

Tive um sonho ruim. Daqueles que você agradece quando acorda.

Durante o dia tentei, em vão, lembrar-me das imagens.

Mas estava embaraçada nas sensações.

Espécie de elaboração avessa: a realidade do sonho.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011




No meio de um devaneio, de tao perdida quase encontrou-se.
Ela buscava o coracao da palavra no pulsar do proprio coracao.
Realizou que encontrar as palavras do pulsar seria como escrever sem acentuar.
Algo sobre o qual nao se pode ou nao se deve escrever.
Ou, se cometer a ousadia de faze-lo, ficaria a escrita pelo meio.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Ciranda

Dá um desespero danado transformar.

Principalmente quando a transformação vem do coração.
Não há tempo para a emoção,
Passou despercebida qualquer possibilidade de razão.


Tomou o peito todo com a força da interrogação que há na vida.


Eu deito tremulamente as palavras sobre o papel como única saída possível de apreender o que de mim em mim acontece.


Duas de uma.
Ou uma de duas, se você preferir.
Uma de fato. Duas acontescencias.


Primeiro o coração. Segundo os ouvidos.
Silencio imperial.


Só palavras aparecem desenhando-se em mim, assegurando não tanto a minha essência, mas essencialmente minha existência.


Balanço-me em uma movimentada corda de letras acumuladas.
E, estranhamente, me impulsiono no vácuo do espaço em branco entre elas.


Ciranda de pensamentos do silêncio.

sábado, 25 de dezembro de 2010

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Brincadeira de menina

Era uma vez, uma menina que passava a vida a contemplar. E da vida, ela contemplava o que cabia no microscópio. Tinha um olhar pequeno, curioso e colorido. A menina nem sabia do seu olhar porque o que dele lhe interessava ela não olhava, apenas saboreava. Assim ela passou a vida, até que em uma de suas idas ao Doutor, a menina espantou-se ao ser, por ele, percebida. Doutor notou o olhar da menina. A menina, depois de ver os olhos do Doutor, saiu olhando diferente.E, a partir da amplidão do próprio olhar, a menina amadureceu. Pura metamorfose de si mesma.  Brincou de laboratoriar com os próprios sonhos. E, sonhando a menina que fora, pôde tornar-se a mulher que é! E depois cresceu.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Preciosa justeza




A menina dos balões encantados - Sandra Guinle


Pairava sobre a mesa, um livro com a história da beleza
Reunidas em torno dela, três pequenas realezas.
Cada uma dona de sua própria inteireza
Deixaram perdido no ar um discreto cheiro de grandezas.

No intervalo das pequenas gotas de precisão
Era possível ouvir lhes bater no peito o coração.
A precisa emoção da justa posição.

Eis a beleza da preciosa justeza.




quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Interferências do ar

Ciranda Mágica - Sandra Guinle


Começamos a pensar nas despedidas para delas cuidar.
E nessa aterrisagem do fim voltamos a vê-los brincar.
Em busca da melhor aterrisagem nos perguntavam, a todo instante, como voar.
Partimos juntos e fomos sobre a tal pergunta pesquisar.
Estavam em pleno voo enquanto nos pusemos a observar.
Encontravam-se lá as meninas na ponta dos pés a saltitar.
Os meninos faziam as capas balançarem até dançar.
Juntos subiam na jabuticabeira para, depois, de lá de cima pular.
E para as tentativas mais ousadas, teve até susto de fazer a professora perder o ar.
Mas entre fadas e heróis ainda havia muito que buscar.
As pistas de carrinhos nós fomos pegar...
Muita força fez o carrinho derrapar.
Alta velocidade o fez, num belo voo, planar.
Empurrá-los com força só fez o desafio aumentar.
E a cada voo levantado era necessário para a pista regressar.
Juntos fomos descobrindo as diferentes possibilidades de aterrisar.
Teve até uma turma que quis escrever um livro para uma história contar.
Maneira sabida de registrar...
Passo importante para o conhecimento transformar!
E na transformação, o imóvel disco de madeira começou a girar.
Os bichos, antes presos no papel, quiseram se libertar.
Mas pra todo esse movimento foi preciso a força na mão empenhar.
Os sorrisos eram de fazer a nossa retina se enfeitar.
A lente da câmera só fez a imagem em nosso ouvido sussurrar:
Eram das crianças todo aquele pensar!
Às professoras coube a arte de revelar.
E a melhor revelação fez a consciência documentar:
Embriagadas pelo valor de ensinar.
Elucidaram já não serem mais as mesmas que eram antes de tudo brotar.
A proximidade do fim as trouxe também a perspectiva de recomeçar.
Sabendo as crianças como aterrisar, poderiam agora com liberdade voar.
E no meu coração, estejam certos, ficará para sempre um carrossel a rodar!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Praticando a teoria ou teorizando a prática?

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Angústia e só, poderia ser simplesmente.


Bastaria- me a solidão dela remanescente.


Aconteceu- me diferente: leitura subjacente.


O coração? Decrescente.


Tudo em forma de uma pequena escrita indecente!

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Diário de bordo (Confissão)

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Desde ontem as confissões têm-se feito insistentemente presentes no meu caminho.
Não as minhas.
Essas eu farei agora.
As confissões acontecidas, porém, entrelaçaram-se nos acontecimentos da minha própria confissão.
A partir de outras, com a de vocês, mora a minha.
Eu.
Desde que me mudei, dentre as aquisições que mais fiz para casa, são as lâmpadas que encabeçam a lista.
Eu sempre soube sob qual luz gostava de morar, mas demorei em aprender a escolhê-la.
E depois de escolhê-la, em buscá-la. Eu demorei, mas cheguei.
Bem na época.
Eu confesso:
Hoje o amor correu pelas veias, a felicidade oxigenou o cérebro e o cansaço rendeu o corpo.
Sem planejamento algum, me vi sentada com três pessoas essenciais na minha vida. Estávamos juntas na sala da minha casa e éramos quatro. Mais a Maria.
E olhá-las juntas, tão perto e tão de perto teve um sabor inexplicável.
Algo como deixar de ser uma ilha imóvel para desfrutar da liberdade de uma baleia.
Ainda que ela carregue certa densidade, movimenta-se com justa liberdade.
Carrega consigo apenas o tamanho necessário.

Boa noite.




quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Insônia

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É assim quando o sonho encontra a realidade
Primeiro vai o sono
Depois vem a felicidade


Pode ser de manhã, pode ser de madrugada
Amarelo de sol ou azul de noite estrelada
No fim da rua começa a estrada


Embriagada de cansaço do corpo a alma repousa calma
A palavra, desenhada de pensamentos, está calada
No vão entre o ruído e o silêncio sigo acordada.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Aniversário


                                                                             
Certamente primavera.
Talvez seja essa a primeira que em minha vida se anunciou.
E em seu breve anunciar, floresceu.
Em um instante qualquer, fora do tempo, dentro da época.
Como se fosse colheita da alma que amadureceu.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

DE MUDANÇA



Carrego comigo:


Muitas recordações e poucas memórias
Muita hereditariedade e pouca herança
Muitas experiências e poucos fatos


Pequenas escolhas e enormes concessões
Pequenos passos e grandes tombos
Pequenas pausas no meio de muito trabalho


O silêncio dos dizeres
O calor dos bons afetos
E o cheiro do amor


A perda de tempo que me faz preencher a vida
A boa companhia que me faz minha solidão
E o porta xampu que trago desde que morava com os meus pais!

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A demora que na rapidez mora

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Era uma vez, uma menina que, enquanto se fazia psicóloga, acabou por se tornar mulher.

Rápido.

Com o rosto emoldurado de largos cachos, que só lhe faziam a beleza realçar, ela cresceu rápido demais.

Demais.

De acordo com a urgência que lhe trancava o peito, mal percebeu que as linhas retas moravam dentro das formas espiraladas que trazia pendurada na cabeça. Seus cachos eram muito mais que um simples capricho da genética.

Capricho.

Movimentando-se vigorosamente, passou desatenta ao valor das curvas. Já estas, por sua vez, nunca mais se esqueceram dela.

Esquecimento.

A mulher, sem saber, era obstinadamente perseguida pelo próprio destino.

Próprio.

E apavorada com aquilo que já não mais se escondia, passou a alma a vazar-lhe pelos poros.

Dor.

Antes fosse pelos olhos...

Lágrimas.

Ela nem sequer suspeitava que a verdadeira demora de sua vida, a única de todas pela qual poderia acertadamente se lastimar, era a constatação de que ela precisava, isso sim urgentemente, aprender a chorar!

Encontro na hora.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Respostas?

Quando o amanhã vai chegar?
Destino ou livre-arbítrio?
Por que nunca fizemos isso antes?


O que da vida, em vida, é preciso deixar morrer para continuar a viver?
Tempo?
E agora? O que eu faço?


Por escolha ou pela falta dela?
Deus?
Qual o melhor caminho?


O que lembrar e o que esquecer?
Sabor do saber ou saber o sabor?
Quando o ontem vai passar?

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Eleições

http://rodrigoconstantino.blogspot.com/2009/12/serra-ou-dilma-escolha-de-sofia.html

Achei um desperdício um texto tão bem escritos pra ideias tão pouco novas.


Até ele começar a falar mal do PT tinha a esperança de que abrisse o texto no sentido de colaborar para que nós eleitores pelo menos nos déssemos conta do quanto ainda precisamos aprender a votar.

Queria MUITO um texto tão bem escrito desse com ideias compatíveis, entende?

Eu ainda não tenho ideia pra quem darei o meu voto, mas tenho me atrevido a ler sobre mais de dois candidatos. Por que será que tudo acaba sempre entre PT e PSDB? E se essa fórmula continua funcionando, pra que eles, justamente os políticos, irião nos propor algo diferente?

O autor acaba mordendo o próprio rabo. Eu não consigo entender o que há de libertário em seu artigo... Talvez seja a liberdade de falar da própria posição política?

Ele escolhe para abrir o texto uma frase belíssima: "O maior castigo para aqueles que não se interessam por política, é que serão governados pelos que se interessam", mas para por aí.

Tudo o que vem adiante fala de um eleitor que simplesmente vota em um partido para impedir que o partido que ele odeia chegue ao poder. Fico me perguntando: em quem, ou em o que ele vota mesmo? Vota pelo melhor ou tão somente para evitar o pior?

Isso é entender de política? A meu ver, que não entendo abolutamente nada do assunto, ele entende de PT e PSDB.

Em um outro momento o autor traz uma outra frase: Tudo que é preciso para o triunfo do mal é que as pessoas de bem nada façam (Edmund Burke) .

Fico pensando se, para esse autor, evitar o mal já seria uma espécie de'"ação do bem". Até entendo quão bacana é ele se posicionar, mas de verdade, eu penso de um jeito muito diferente disso.

Tenho certeza absoluta de que não entendo absolutamente nada de política, mas imagino que ela pode ser bem mais inteligente do que vem se apresentando e bem maior do que as rusgas intermináveis entre os dois partidos que se apresentam sempre como principais concorrentes.

Essa mudança jamais será proposta por aqueles que estão no poder, sejam eles quem forem. Se é preciso alguma mudança, não seríamos nós os mais indicados a iniciá-la?

Sem voto não há eleição, simples assim.

Acontece, porém que iniciar uma mudança dá trabalho. De verdade. E isso quase ninguém quer. É mais fácil fazer um relicário dos podres do partido que se odeia e depois escrever um puta texto desse para declarar, com notável competência ( em escrita, é claro!), que pelos mesmos motivos votará no outro.

Sei lá, talvez eu entenda menos ainda de política do que imaginava. De qualquer maneira prefiro me posicionar de outra maneira: tentando verdadeiramente aprender sobre.

domingo, 25 de julho de 2010

Felicidade

Enquanto nasciam nela essas palavras, surpreendemente, deu-se conta do quanto não tinha palavras sobre a felicidade. E, que não as tinha, por um motivo obvio: nunca tinha, de fato, estado com ela. Carregava, ao longo de sua história vivida, o peso de concepções equivocadas construídas  durante o percurso realizado, e sem o qual, entretanto, ela jamais conseguiria ser - se realmente feliz. Só lhe restava continuar o que há muito tinha começado. Num primeiro momento, a felicidade soou-lhe estranha. Tão desconhecida, que ficava impossível nela reconhecer-se. Sim, ela já havia sido feliz, mas dar de cara com a felicidade era diferente de ser feliz, pois se tratava da liberdade da escolha de ser. Entendeu, verdadeiramente, nesse momento, aquelas frases clichês que dizem que só tem a felicidade quem vai buscá-la. A verdadeira felicidade é árdua e exige esforço por parte daqueles que a perseguem. Sua dimensão, no início, amedronta. É um caminho sem volta e, que você só sabe que vale a pena, depois de adentrá-lo. Para fazê-lo, porém, é preciso arriscar-se e, para correr o risco é preciso coragem, porque o medo já se tem naturalmente. Foi assim, completamente ao seu tempo, que ela se permitiu começar. E, como não poderia ser diferente, começou pelo começo. Deixou cair, dolorosamente, o pseudo-ser-si-mesma para assumir a ignorância de si. Foi somente ao se deparar com seu insignificante tamanho, que se deu conta de sua tamanha amplitude. Apavorou-se, só não se sabe ao certo, se por saber de si tão pequena ou tão ampla. Admitiu a si mesma a nova possibilidade que se apresentava. Foi. E, sem ao menos ter gestado uma criança, mas grávida da própria alma descobriu a felicidade da dor de parto: era o que doía que fazia existir e era, só depois de viver a dor até o fim, que ela delicadamente viu-se a tocar naquilo que mais originalmente lhe pertencia: o começo da história.
Acalmou-se, enfim.
E acomodou-se com a felicidade.




terça-feira, 20 de julho de 2010

Ressaca

...


Quando você encontra com uma pedra sozinha,ela é só uma pedra.
Quando você se depara com uma multidão de pedras, elas se transformam em história.

Quando você fica frente a frente com um homem sozinho, vê um único homem.
Mas quando você se vê como parte da multidão, compreende a humanidade do homem que você é


segunda-feira, 5 de julho de 2010

Palavras



E antes mesmo que eu pudesse ouvi-las, já as escutava.
Elas foram chegando, simplesmente.
Não precisavam exatamente que eu as quisesse, bastava ser-lhes a portadora do silêncio que elas, já antes de mim, habitavam.
Uma a uma construíram-se para depois contarem-se.
Desta vez com o coração calmo e a alma tranqüila.
Sem impactos, sem furor. Nem de ódio e nem de amor.
Construíram-se em frases com a mesma precisão com que se levantam as paredes de uma casa.
Misturaram-se, com impressionável delicadeza, ao tempo da espera que lhes foi ofertado.
Encontraram-se as palavras reunidas em si mesmas e a partir delas fizeram nascer outras.
Eu, refém.
Imobilizada pelos sons mudos pronunciados sem permissão, me rendi.
Eu, rendida.
Ouvindo-lhes sobre a construção, passei eu mesma a lhes servir de morada.
Encontrei-me com palavras esquecidas.
Encostei-me com cautela naquelas que ainda não foram vividas.
E foi durante um sonho que elas se materializaram podendo ser ouvidas!
Palavras?

domingo, 30 de maio de 2010

O destino de Patrícia

Patrícia só pôde ser ela quando, de repente, foi outra.
Outra de si mesma.
A mulher demorou a nascer, mas quando o fez, pronunciou-se com firmeza admirável.
Patrícia vestia, na melhor versão de si mesma, jeans e camiseta branca.
Algo nela cheirava a terra...
Era bom assistir Patrícia!
Invariavelmente fazia rir a todos que se aproximavam.
Ela tinha o abraço dos bem amados e a temperatura dos bons amantes.
Ao completar seus 30 anos, Patrícia se foi. E depois nasceu.
Tinha no olhar o brilho de poucos e, embora estivesse longe de ter tudo o que desejava, tocara, quase sem querer, nas estrelas penduradas no céu.
Patrícia sabia ter encontrado seu caminho.
E nesse dia saltou-lhe da boca um sorriso tão profundo que ela teve marcado pra sempre em sua saliva o inconfundível sabor da plenitude.
E plena da incompletude que lhe fora conferida deu de cara com a vida: e agarrou-a.

sábado, 15 de maio de 2010

Patrícia

Patrícia tinha a leveza digna dos que carregam poucos arrependimentos.

De presença despretensiosa, cheiro suave e cor natural, ela fazia marcar na areia as próprias pegadas com uma suavidade que podia soar agressiva àqueles que não tinham coragem de pisar o próprio chão.

Caminhava em frente. Sempre.

Patrícia nunca fazia o que tinha quer ser feito e pagava caro por isso: era desesperadamente alegre de tanto fazer o que queria fazer.

Era simples e bonita. Mas também era um pouco outono, um pouco primavera.

Tinha um sorriso indecente e um olhar atrevido.

Agradava-lhe, e muito, preencher o olfato de bons odores.

Tinha também verdadeira obsessão pelas cores que reluziam debaixo da luz amarelo ouro do sol. Ah, essa luz...

Patrícia ia e vinha no tempo como bem entendia.

Insubordinável, ela amava devagar e fundo por apreciar movimentos lentos e saborosos.

No corpo honesto trasbordava-lhe, discretamente, a alma transgressora.

Mais fazia do que pensava, mas por diversas vezes se pegou pensando no que fazer.

Ela era como o calor que diferencia a brisa fresca da gelada, portanto seu significado era quase imperceptível a olhos nus.

Sem nenhuma sombra de dúvida, o melhor de Patrícia era o som da risada quase pronográfica com que ria de si mesma.

Para encontrar Patrícia bastava procurá-la.


PROCURA-SE  POR PATRÍCIA!

terça-feira, 27 de abril de 2010

São Paulo, 27 de abril de 2.010.



Amiga querida,



Reencontrar seu olhar hoje me inquietou novamente. Eu sei, e muito, por onde você está passando. E talvez só o saiba por ter tido, na hora em que as paredes da minha casa sumiram, uma amiga ao telefone. Nem sei se já contei a ela o que aquela ligação, naquela hora, me representou. Mas o que nos importa agora é que ela ligou. As paredes desmoronavam lentamente, uma a uma, mas restou nas mãos o telefone. Pra pedir um socorro, que fosse... Dali em diante meus olhos perderam o brilho. Lembro-me de ver dias de sol completamente cinzas. A janela fechada, a alma perdida, o coração fraco, a morte! É só assim que a gente renasce: morrendo. Mas morrer dá certo desespero, sabe? Então você nega e fica ali, feito cinza. Acho que é por isso que eu não gosto desta cor. Só que eu sou teimosa de dar medo e desistir é um conceito que eu tento diariamente incluir no meu repertório, mas a minha própria teimosia não permite. Fiquei lá estirada no escuro até que um dia, depois de muita chuva os dias de sol foram voltando, vagarosamente, a terem o devido brilho. E eu, depois de longo tempo abri uma fresta da janela para olhar. Desde este dia, venho reaprendendo a caminhar. Só que agora deixando pra trás pegadas legitimamente minhas. As pernas algumas vezes ainda se ressentem e cansam. Só que agora elas têm força suficiente para sentarem-se antes de cair.Talvez este seja, o motivo pelo qual eu tenha errado a porta ontem e dado de cara com você e tenha feito o que eu fiz. Eu posso e vou segurar a sua mão na escuridão até você conseguir abrir, pelo menos, uma fresta da janela novamente. Beijo grande.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

São Paulo, 26 de abril de 2.010.


Querida amiga,



Estou mandando esta carta para dizer-lhe algumas palavras.
Eu já chorei o choro que você chorou hoje.
Reconheci nos seus olhos a dor que já doeu em mim.
Por isso, se quiser, pode contar comigo.


Eu gosto muito de você e, mesmo que você não chame, estarei sempre por perto.
Não te perguntarei sobre nada. Sei como falar torna-se um ato de extremo esforço nesse momento.
Mas, ainda assim, estarei com os ouvidos sempre abertos para qualquer som emitido pela sua delicada voz.


Na hora do tombo, a gente dá com a cara no chão e chora porque acha que não vai saber ou conseguir levantar.
Depois a gente se conforma de já estar no nível mais baixo que nos é possível chegar, e relaxamos.
Ao relaxar descansamos.
Acabamos por ficar tão familiarizados com o chão que logo começamos a perceber que é possível se movimentar.
Com poucos movimentos fazemos deste mesmo chão, o primeiro degrau para se apoiar e levantar.
Uma vez de pé, reaprenderá a andar. O processo é lento e trabalhoso, mas aos poucos, irá se dando conta das pernas que têm e dos possíveis passos que poder dar.
Talvez eles sejam menores do que, de fato, os imaginava. Mesmo assim se sentirá estranhamente livre. E feliz!


Nós já somos companheiras de viagem, mesmo que nunca mais falemos sobre o assunto.


Estou por perto.

sábado, 24 de abril de 2010

O varal de Patrícia







Patrícia estendia roupa com apreciável zelo.
As marcas vividas naquelas roupas haviam se diluído na água que a máquina, sem pensar, escoou.
Restara-lhe na mão apenas peças limpas, sem marcas desnecessárias.
Abaixou o varal.
E colocou uma a uma todas as peças lavadas para secarem.
Da melhor maneira que lhe foi possível, planejou o arranjo cuidadoso de cada uma delas.
E, enquanto o fazia, regozijou-se no cheiro da novidade.
Ao terminar, levantou o varal e se foi.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O banho de Patrícia





Foi só ao sair do banho, que acabara de lhe devolver a pele umidamente esterilizada, que Patrícia deu-se conta.
Deixara de tomar o banho da noite anterior. Mas não por um motivo qualquer.
Patrícia sentiu, sob o calor da água de seu banho, escoar o cheiro dele.
E, ao não tê-lo mais em si, deu-se conta.
Não havia, em momento algum, negado o banho.
Tinha sim, com propriedade, escolhido dormir no cheiro que até aqui a alimentara.
Esteve leve ao longo do dia: no corpo e na alma.
Leveza demais, que de tão leve quase deixou Patrícia encostar, com as pontas dos dedos, na alegria.
Amedrontou-se sem pudores.
Simples assim.
Depois da alegria tocada, quem viria ela a ser?

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Mesmo assim

(Mulher chorando - Pablo Picasso)



Mais um dia nasceu. E mais uma vez morri na noite que se escondeu para que ele aparecesse.
Com o peito ardendo em chamas decidi seguir mesmo assim.
Coloquei na mala o ouvido que me sobrou depois de tê-lo tirado o som da sua voz.
Respirei gotas de ar com o nariz que, por não ter mais seu cheiro, se desencantou.
Vesti a pele dolorida pelo ferimento do abraço que faltou.
Escolhi tirar os sapatos e seguir descalça com a única liberdade que restou.
Pés na terra. Uma espécie de tentativa de evitar a explosão.
Encolhida nos olhos encharcados  que não me deixaram ver o caminho.
Eu fui mesmo assim.


Só não se sabe pra onde...

?

Silêncio,






Medo...





Lacunas!





A dor.







Partida?





Se você for eu vou.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A costureira

Era uma vez uma costureira.
Porque ela se fez costureira não se sabe a resposta.
Reside nesta pergunta o mistério que não sabemos se um dia veremos desvendado.
Toda e qualquer tentativa de resolução, até agora, não passou de mera suposição.
Para que se fez costureira, talvez um dia, ela alcance a resposta.
O fato é que ela costurava incessantemente. 
Mas só depois de um tempo adiantado, deu-se conta de costureira ser.
Disfarçou-se demasiadamente pelo caminho.
Quase se perdeu entre pontos inusitados, mas salvou-se a tempo por ter estado sempre presa a um único fio; a ânsia de ser.
No dia que finalmente pode revisitar-se sem reservas, conseguiu desembolar o novelo para fazer uso do imenso e indispensável fio que necessitava para a nova costura que pretendia fazer.
Desesperou-se ao se deparar com o trabalho de uma vida toda desfeito.
Fios soltos para todos os lados.
Chorou ao repassar os alinhavos, mas entregou-se por fim.
Entre lágrimas, deu-se conta da agulha que na mão lhe sobrara.
Num dia despretensioso, de um tempo com tempo, encontrou-se com mais duas artesãs.
Pôs- se de pé e fez seguir.
Embora fizessem uso de diferentes matérias primas, as três artesãs buscavam uma mesma obra de arte como produção: reinventar-se.
Foi assim, em boa companhia, que a costureira encorajou-se a recomeçar: pôs-se a costurar com os fios soltos sua nova invenção.
De tanto costurar, deu-se conta, um dia, que costureira era e que justamente aí, na simples descoberta, habitava aquilo que por tanto tempo ela procurava ser.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Oi Mari,



Estava com saudades e fiquei feliz em receber sua carta hoje.

Suas notícias soaram-me um tanto relaxante. Deixaram-me quentinha e confortável.

Só hoje, depois de ter lido sua carta, fui aos poucos me apropriando da dimensão das escolhas que a gente faz na vida.

Eu não tenho, nesse momento, como encontrar as palavras precisas para dizer quão contornável foi poder ler-me nas suas. Obrigada, de verdade.

De fato trabalho alimentando a alma, não vendendo-a, mas por continuar escolhendo a mesma escolha a cada novo dia, eu também vou aprendendo que para isso sempre há de se deixar as outras tantas escolhas que não foram feitas..

Acordo, e uma das primeiras coisas que me vêm à cabeça é qual a vida que eu quero pra mim.

Ainda que apenas intente idealizar essa questão, sou diretamente lançada ao que de fato, para mim, é na vida valoroso.

Nossa! Uma canseira danada... Esforços que não acabam mais. Viagem que eu não vejo o fim.

Esforço existencial mesmo sabe?

E eu também queria, além do que quero todos os dias, algumas das outras escolhas  que deixo de querer quando faço esta. Movimento intermitente de aprender “abrir mão” para simplesmente ser o que eu quero ter pra minha vida.

É disso que eu vivo amiga.

Uma escolha diária, muito trabalho e eu na recompensa.

Gosto do outro. Tanto, que pensei em tempos passados, que os valorizava mais do que a mim.

No caminho eu já aprendi que somente seremos em companhia do outro. Tanto quanto eu for o melhor de mim, o melhor do outro a ele oferecerei..

Percebi que em todas as instâncias somos nós, os únicos realmente capazes de nos fazermos “sendo” realizados.

Se o mundo parasse, meu último pensamento seria: apesar de não ter assistido ao filme que eu tanto queria, apesar de ter dado um super furo com a Pati hoje e apesar das muitas coisas que deixei por fazer, até hoje eu fui feliz!

Muito obrigada pela companhia durante a trajetória.

Fica claro pra mim o quanto a proximidade anda desligada da necessidade de estarmos fisicamente perto.

Bons dias de Mariana pra você.

Beijo grande,

Thais