sábado, 6 de março de 2010

O menino rei

Era uma vez um menino que sonhou em ser valente. E só de sonhar, assim se fez.
Tão valente que era, esqueceu-se de sonhar também com a outra metade da valentia, a fragilidade.
O menino acordou achando que era ele o único herói a precisar de um descanso e assim, sentiu-se menos herói.

Ficou pela metade. E com meio olho somente, o menino não pôde ver...

Não viu que só se é valente por inteiro quando também se é frágil.
Deixou de enxergar que sempre que encontrava com os outros heróis e eles estavam prontos pra batalha, era porque em algum outro momento já haviam deixado repousar em si sua fragilidade.
E por não perceber isso, justamente no momento em que estava com a melhor espada na mão, o menino achou que não era mais tão guerreiro.
Sentiu-se acuado e recolheu-se silenciosamente.
Temia mostrar ao mundo o que o mundo já sabia: todo herói tem o seu dia de menino.
Guardou as espadas numa redoma como recordação do herói que ele pensava não mais poder ser.

De tão humano o herói menino até se esqueceu que humano ele era.

Cresceu uma época  e depois de crescer reinventou-se sonhando em ser rei.
Sonhou um sonho muito bem planejado, mas esqueceu-se apenas de sonhar com o dia em que aprenderia sê-lo.

Sob as mais belas vestimentas, preparadas as pressas por habilidosas costureiras, o menino pensou que estava pronto e se pôs de rei o mais rápido que pôde.
No seu palácio divertiu-se sem pudores.

Acontece que como o menino não sonhara com o dia de aprender, não sabia que apenas meio olho estava a lhe servir. Mais uma vez ele não conseguiu ver.

Escapou-lhe das retinas a delicada condução que a vida lhe fez até esse indispensável passo para a realização do sonho: o dia de aprender a ser rei.

O menino encolheu.

Imediatamente o céu pôs-se a chorar.

Cada gota de chuva que caia impregnava o mundo de um lamento dolorido, pois este carecia de heróis e reis que fossem um pouco mais valentes e para isso só sendo tão inteiros quanto os homens corajosos que o mundo, lamentoso, aguardava quase impacientemente.

Um comentário:

Gabriel disse...

esse não é um "daqueles" antigos que tinha dito que já tinha escrito, é?!
ta lindo, mas doi de ler!
bjo