Silêncio,
Medo...
Lacunas!
A dor.
Partida?
Se você for eu vou.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
segunda-feira, 19 de abril de 2010
A costureira
Era uma vez uma costureira.
Porque ela se fez costureira não se sabe a resposta.
Reside nesta pergunta o mistério que não sabemos se um dia veremos desvendado.
Toda e qualquer tentativa de resolução, até agora, não passou de mera suposição.
Para que se fez costureira, talvez um dia, ela alcance a resposta.
O fato é que ela costurava incessantemente.
Mas só depois de um tempo adiantado, deu-se conta de costureira ser.
Disfarçou-se demasiadamente pelo caminho.
Quase se perdeu entre pontos inusitados, mas salvou-se a tempo por ter estado sempre presa a um único fio; a ânsia de ser.
No dia que finalmente pode revisitar-se sem reservas, conseguiu desembolar o novelo para fazer uso do imenso e indispensável fio que necessitava para a nova costura que pretendia fazer.
Desesperou-se ao se deparar com o trabalho de uma vida toda desfeito.
Fios soltos para todos os lados.
Chorou ao repassar os alinhavos, mas entregou-se por fim.
Entre lágrimas, deu-se conta da agulha que na mão lhe sobrara.
Num dia despretensioso, de um tempo com tempo, encontrou-se com mais duas artesãs.
Pôs- se de pé e fez seguir.
Embora fizessem uso de diferentes matérias primas, as três artesãs buscavam uma mesma obra de arte como produção: reinventar-se.
Foi assim, em boa companhia, que a costureira encorajou-se a recomeçar: pôs-se a costurar com os fios soltos sua nova invenção.
De tanto costurar, deu-se conta, um dia, que costureira era e que justamente aí, na simples descoberta, habitava aquilo que por tanto tempo ela procurava ser.
Porque ela se fez costureira não se sabe a resposta.
Reside nesta pergunta o mistério que não sabemos se um dia veremos desvendado.
Toda e qualquer tentativa de resolução, até agora, não passou de mera suposição.
Para que se fez costureira, talvez um dia, ela alcance a resposta.
O fato é que ela costurava incessantemente.
Mas só depois de um tempo adiantado, deu-se conta de costureira ser.
Disfarçou-se demasiadamente pelo caminho.
Quase se perdeu entre pontos inusitados, mas salvou-se a tempo por ter estado sempre presa a um único fio; a ânsia de ser.
No dia que finalmente pode revisitar-se sem reservas, conseguiu desembolar o novelo para fazer uso do imenso e indispensável fio que necessitava para a nova costura que pretendia fazer.
Desesperou-se ao se deparar com o trabalho de uma vida toda desfeito.
Fios soltos para todos os lados.
Chorou ao repassar os alinhavos, mas entregou-se por fim.
Entre lágrimas, deu-se conta da agulha que na mão lhe sobrara.
Num dia despretensioso, de um tempo com tempo, encontrou-se com mais duas artesãs.
Pôs- se de pé e fez seguir.
Embora fizessem uso de diferentes matérias primas, as três artesãs buscavam uma mesma obra de arte como produção: reinventar-se.
Foi assim, em boa companhia, que a costureira encorajou-se a recomeçar: pôs-se a costurar com os fios soltos sua nova invenção.
De tanto costurar, deu-se conta, um dia, que costureira era e que justamente aí, na simples descoberta, habitava aquilo que por tanto tempo ela procurava ser.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Estava com saudades e fiquei feliz em receber sua carta hoje.
Suas notícias soaram-me um tanto relaxante. Deixaram-me quentinha e confortável.
Só hoje, depois de ter lido sua carta, fui aos poucos me apropriando da dimensão das escolhas que a gente faz na vida.
Eu não tenho, nesse momento, como encontrar as palavras precisas para dizer quão contornável foi poder ler-me nas suas. Obrigada, de verdade.
De fato trabalho alimentando a alma, não vendendo-a, mas por continuar escolhendo a mesma escolha a cada novo dia, eu também vou aprendendo que para isso sempre há de se deixar as outras tantas escolhas que não foram feitas..
Acordo, e uma das primeiras coisas que me vêm à cabeça é qual a vida que eu quero pra mim.
Ainda que apenas intente idealizar essa questão, sou diretamente lançada ao que de fato, para mim, é na vida valoroso.
Nossa! Uma canseira danada... Esforços que não acabam mais. Viagem que eu não vejo o fim.
Esforço existencial mesmo sabe?
E eu também queria, além do que quero todos os dias, algumas das outras escolhas que deixo de querer quando faço esta. Movimento intermitente de aprender “abrir mão” para simplesmente ser o que eu quero ter pra minha vida.
É disso que eu vivo amiga.
Uma escolha diária, muito trabalho e eu na recompensa.
Gosto do outro. Tanto, que pensei em tempos passados, que os valorizava mais do que a mim.
No caminho eu já aprendi que somente seremos em companhia do outro. Tanto quanto eu for o melhor de mim, o melhor do outro a ele oferecerei..
Percebi que em todas as instâncias somos nós, os únicos realmente capazes de nos fazermos “sendo” realizados.
Se o mundo parasse, meu último pensamento seria: apesar de não ter assistido ao filme que eu tanto queria, apesar de ter dado um super furo com a Pati hoje e apesar das muitas coisas que deixei por fazer, até hoje eu fui feliz!
Muito obrigada pela companhia durante a trajetória.
Fica claro pra mim o quanto a proximidade anda desligada da necessidade de estarmos fisicamente perto.
Bons dias de Mariana pra você.
Beijo grande,
Thais
sábado, 10 de abril de 2010
São Paulo, 9 de abril de 2010.
Meu querido diário,
Foi difícil levantar da cama hoje, sofri à beça.
No intervalo consciente entre o dormir e acordar matinal, o quentinho da cama e as vozes das crianças que já povoavam meus ouvidos, eu consegui tirar o cobertor.
Estava cansada, a semana foi exaustiva...
Frio.
Mas o que eu tinha pela frente era como um encontro com a força mais forte que há de mim em mim: meu trabalho. E nesse caso a expressão “ganha pão” não basta. Talvez “alimento da alma” lhe sirva melhor.
Caminhei a caminhada de todos os dias. Pensei pensamentos estranhos e infinitos.
Cheguei ao destino previsto na hora exata.
Encontrei-me com as crianças conhecidas para desbravarmos juntos um dia que nunca existiu.
Durante a nossa roda de conversa inicial, ao ouvi-los, lembrei-me da belíssima aula que tive sobre autonomia e lembrei-me, em seguida, o quanto amo trabalhar com educação, principalmente por ter assim a possibilidade de me reeducar a cada dia.
Retomei a concentração e voltei a ouvi-los. Estava tudo sendo dito e tudo o que eu precisava fazer era saber ouvir.
Fiz.
Tudo bem que o cobertor tivesse ficado pra trás. Não me faltou calor um minuto sequer.
Calor de vida, porque eu trabalho justamente na ponte por onde as crianças passam quando vão de suas famílias para o mundo.
Eu, de lá de cima da ponte, olho de um lado e vejo o mundo que temos. Olho para o outro e vejo o mundo que eu quero.
Do lado do mundo que eu quero eu compartilho da vida com pessoas que podem fazer a diferença no mundo que temos. É pra lá que eu vou... Atrás do muro azul.
E a cada coisa que pretendo ensinar-lhes é necessário que eu aprenda ser.
Entende querido diário, que eu não posso parar?
É necessário que eu aprenda ser!
Elas aprendem o que eu ensino, mas compartilham do que eu sou.
Durante a travessia da ponte, passam um ano de suas vidas comigo.
Enquanto estou lá com elas, os vejo construírem seus próprios olhares, estabelecerem relações de confiança, experimentar-se enquanto pessoas, que ainda são pequenas, mas um dia crescerão.
Elas aprendem a subir na árvore debaixo dos meus olhos, aprendem a colocar os sapatos ao meu lado e depois de tanto eu perguntar se estão satisfeitas após o lanche, um dia as vejo levantar dizendo por elas mesmas que o estão.
Eu lhes ensino a levantar depois de cada tombo, lhes ensino a conversar para resolver os problemas e a confiar, lhes ensino sobre o respeito, mas não quando falo sobre ele e sim a cada instante que o pratico.
Depois elas descobrem que, do outro lado do muro azul, logo após cruzar a ponte há ainda um mundo inteiro a ser reinventado.
E é pra lá que elas vão. Para fora do muro azul...
Só que elas vão tendo passado pela ponte e, portanto por mim. Deixam-me, invariavelmente, melhor do que era antes de conhecê-las e pretendo, com a força da minha alma, que levem consigo a lembrança de terem estado com alguém que foi, com elas e para elas, o melhor que podia ser.
É assim, querido diário que eu começo todos os meus dias. Com a possibilidade de aprender tudo o que eu ainda não sei e vir a ser alguém melhor do que aquela que vi dormir na noite anterior.
Sobra-me pouco a mais para querer da vida!
Meu querido diário,
Foi difícil levantar da cama hoje, sofri à beça.
No intervalo consciente entre o dormir e acordar matinal, o quentinho da cama e as vozes das crianças que já povoavam meus ouvidos, eu consegui tirar o cobertor.
Estava cansada, a semana foi exaustiva...
Frio.
Mas o que eu tinha pela frente era como um encontro com a força mais forte que há de mim em mim: meu trabalho. E nesse caso a expressão “ganha pão” não basta. Talvez “alimento da alma” lhe sirva melhor.
Caminhei a caminhada de todos os dias. Pensei pensamentos estranhos e infinitos.
Cheguei ao destino previsto na hora exata.
Encontrei-me com as crianças conhecidas para desbravarmos juntos um dia que nunca existiu.
Durante a nossa roda de conversa inicial, ao ouvi-los, lembrei-me da belíssima aula que tive sobre autonomia e lembrei-me, em seguida, o quanto amo trabalhar com educação, principalmente por ter assim a possibilidade de me reeducar a cada dia.
Retomei a concentração e voltei a ouvi-los. Estava tudo sendo dito e tudo o que eu precisava fazer era saber ouvir.
Fiz.
Tudo bem que o cobertor tivesse ficado pra trás. Não me faltou calor um minuto sequer.
Calor de vida, porque eu trabalho justamente na ponte por onde as crianças passam quando vão de suas famílias para o mundo.
Eu, de lá de cima da ponte, olho de um lado e vejo o mundo que temos. Olho para o outro e vejo o mundo que eu quero.
Do lado do mundo que eu quero eu compartilho da vida com pessoas que podem fazer a diferença no mundo que temos. É pra lá que eu vou... Atrás do muro azul.
E a cada coisa que pretendo ensinar-lhes é necessário que eu aprenda ser.
Entende querido diário, que eu não posso parar?
É necessário que eu aprenda ser!
Elas aprendem o que eu ensino, mas compartilham do que eu sou.
Durante a travessia da ponte, passam um ano de suas vidas comigo.
Enquanto estou lá com elas, os vejo construírem seus próprios olhares, estabelecerem relações de confiança, experimentar-se enquanto pessoas, que ainda são pequenas, mas um dia crescerão.
Elas aprendem a subir na árvore debaixo dos meus olhos, aprendem a colocar os sapatos ao meu lado e depois de tanto eu perguntar se estão satisfeitas após o lanche, um dia as vejo levantar dizendo por elas mesmas que o estão.
Eu lhes ensino a levantar depois de cada tombo, lhes ensino a conversar para resolver os problemas e a confiar, lhes ensino sobre o respeito, mas não quando falo sobre ele e sim a cada instante que o pratico.
Depois elas descobrem que, do outro lado do muro azul, logo após cruzar a ponte há ainda um mundo inteiro a ser reinventado.
E é pra lá que elas vão. Para fora do muro azul...
Só que elas vão tendo passado pela ponte e, portanto por mim. Deixam-me, invariavelmente, melhor do que era antes de conhecê-las e pretendo, com a força da minha alma, que levem consigo a lembrança de terem estado com alguém que foi, com elas e para elas, o melhor que podia ser.
É assim, querido diário que eu começo todos os meus dias. Com a possibilidade de aprender tudo o que eu ainda não sei e vir a ser alguém melhor do que aquela que vi dormir na noite anterior.
Sobra-me pouco a mais para querer da vida!
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Despreparo
Volpi, Composição com formas circulares.
Eu quero tempo de escrever, mas para isso preciso ter tempo para gestar.
Sim, lógico que sim. Eu quero gestar!
Por que ainda não o fiz?
Falta de espaço pra gerar e para gerar é imprescindível disponibilizar.
Claro que sim... Eu realizo o espaço.
E falta o quê?
Achar o tempo de partir em busca de mim.
Deixar de dar o meu tempo a você.
domingo, 4 de abril de 2010
Ela, mais uma vez.
O sonho (1932), Pablo Picasso
Ela, definitivamente, as incorporara.
E tal ocorrência só era possibilidade viva àquelas que de fato eram mulheres.
E ela só podia ser mulher.
E estava entorpecida do próprio amor que carregava.
Pensou em se auto- acolher em algum lugar que fosse a origem.
Ela não encontrou. As origens são assim somente no momento em que dão.
Depois da origem vem a intersecção.
Imaginou-se contraída em forma de círculo.
Esquentou-se do próprio sangue.
Ela riu sozinha no momento que sucedeu ao desespero.
Esteve fora por alguns instantes e depois retomou.
segunda-feira, 29 de março de 2010
Declaração
Tanto mais me ponho a ensinar, mais e mais descubro que só tenho a aprender.
Tanto mais me dedico a amar, mais aparece em mim uma vontade nua de amada ser.
Tanto mais caminho na direção, tanto mais me perco.
Tanto mais perdida, mais me encontro.
Tanto mais escrevo, mais quero escrever.
Tanto mais me leio, menos quero te esquecer.
Tanto mais me dedico a amar, mais aparece em mim uma vontade nua de amada ser.
Tanto mais caminho na direção, tanto mais me perco.
Tanto mais perdida, mais me encontro.
Tanto mais escrevo, mais quero escrever.
Tanto mais me leio, menos quero te esquecer.
domingo, 28 de março de 2010
Simples
Esses dias, li algo sobre a simplicidade de se poder ver uma árvore torta e saber que aquela é a maneira mais verdadeiramente simples de vê-la.
Tentar mudar o ângulo, além de complicar não a faria ser uma árvore reta.
Endireitá-la seria matá-la.
Eu li e em seguida caí.
Fui lançada em direção a uma viagem em que a linha de chegada se desenhava no exato ponto de partida.
Percurso longo, de exaustas tentativas, para fazer caber na justeza da solidão, a imensidão do ser.
Mover-se em direção a liberdade de aprender e das equivocadas ilusões se desfazer.
Crescer?
Re – aprender.
Da antiga aprendizagem a liberdade para escolher e das tardias consciências a permissão de fazer.
De você para você se recolher e sem misturas ver o outro a sua frente renascer.
Na nova clareira da escuridão se refazer e assim, voltar a aprender.
E seguir a viver...
Tentar mudar o ângulo, além de complicar não a faria ser uma árvore reta.
Endireitá-la seria matá-la.
Eu li e em seguida caí.
Fui lançada em direção a uma viagem em que a linha de chegada se desenhava no exato ponto de partida.
Percurso longo, de exaustas tentativas, para fazer caber na justeza da solidão, a imensidão do ser.
Mover-se em direção a liberdade de aprender e das equivocadas ilusões se desfazer.
Crescer?
Re – aprender.
Da antiga aprendizagem a liberdade para escolher e das tardias consciências a permissão de fazer.
De você para você se recolher e sem misturas ver o outro a sua frente renascer.
Na nova clareira da escuridão se refazer e assim, voltar a aprender.
E seguir a viver...
sábado, 27 de março de 2010
Ela
Ela tinha o estranho hábito de se encantar pelas profundezas, e este era o motivo óbvio pelo qual nunca se deixara seduzir pelas grandiosidades da vida.
Ela só poderia ser mulher.
E só poderia preferir as formas arredondadas.
Seus olhos?
Preferiam sempre o “bom e velho olho-no-olho”. Nem um pouquinho pra cima, nem minimamente para baixo.
Ao justo alcance simplesmente.
Era capaz de mover o corpo inteiro para não perder o foco (para as crianças joelhos ao chão, aos jovens, aos loucos e aos inimigos a ajustada altura e aos velhos sua sincera reverência), o que não lhe diminuía em nada os espantos que tinha a cada novidade da vida.
Ela não era tão nova quanto parecia e nem envelhecida, o suficiente, para deixar de acreditar no amor.
Em movimentos precisos e vagarosos ela se colocava adiante pé-ante-pé.
Poder-se-ia até dizer que ela caminhava, não fosse sua inabilidade em manter a linha reta.
Ela só poderia ser mulher.
E só poderia preferir as formas arredondadas.
Seus olhos?
Preferiam sempre o “bom e velho olho-no-olho”. Nem um pouquinho pra cima, nem minimamente para baixo.
Ao justo alcance simplesmente.
Era capaz de mover o corpo inteiro para não perder o foco (para as crianças joelhos ao chão, aos jovens, aos loucos e aos inimigos a ajustada altura e aos velhos sua sincera reverência), o que não lhe diminuía em nada os espantos que tinha a cada novidade da vida.
Ela não era tão nova quanto parecia e nem envelhecida, o suficiente, para deixar de acreditar no amor.
Em movimentos precisos e vagarosos ela se colocava adiante pé-ante-pé.
Poder-se-ia até dizer que ela caminhava, não fosse sua inabilidade em manter a linha reta.
sexta-feira, 26 de março de 2010
Segredo
Ele era dela, mas a constatação do fato não era, definitivamente, o suficiente para que fosse reconhecido.
Ela tinha o segredo agora, mas não o tivera desde sempre. Foi só após a citada revelação que ele pôde enfim, mostrar-se em segredo.
Ele estava nela, mas tão secreto em si mesmo que era, precisou de outro alguém para desvendá-lo.
Ela entregou a caixinha fechada e a teve de volta entreaberta.
Segredo que era protegia-se da luz escancarada.
Por entre os pequenos raios de baixa luminosidade com que alguém clareara a caixinha agora, ela conseguira, por fim, deleitar-se na escuridão do segredo que iluminava...
terça-feira, 23 de março de 2010
Rotina
Não sei bem onde foi que o meu dia começou.
Estaria seu início no começo da noite de ontem?
Encontrar-se-ia seu principio no sonho acontecido no meio da noite dormida?
Quem sabe já estava acontecido na novidade desconhecida que o novo dia estampava?
O fato é que tudo de mais verdadeiro que posso, neste momento afirmar, é que levantei bem. Assim, sabe? Simplesmente bem.
Somente uma coisa a cada vez e um lugar a cada estadia.
Rotina orientadora, que situa e que acalma. Dia simples de experiências sensacionais.
Tempo com tempo, olho no olho, risos dos risos, amparo das lágrimas.
Almoço mediano e um chocolate especial de sobremesa.
Leituras. Rasas e profundas, chatas e divertidas, literais ou subjetivas.
A linha do horizonte vista com a alma e para a alma, já que o corpo encontra-se agora em estado de atenção.
Boas conversas, simplesmente estar sentada ao lado da minha Amiga (ainda que em silêncio e por pouco tempo), clareza de argumentos.
Retorno em boa companhia. Eu gosto de gente!
Dia de rotina feliz!
domingo, 21 de março de 2010
Não é sempre
Não é sempre, mas às vezes:
Eu olho um sorriso e vejo um dente triste.
Eu escuto palavras, mas ouço o silêncio.
Observos meros ou únicos encontros.
Acho que luz em excesso me maltrata a visão,
Não é sempre, mas de vez em quando:
Eu olho pra saudade e vejo o amor,
Eu escuto palavras, mas ouço a voz
Eu procuro em mim a pista de um cheiro
E continuo lado a lado com a solidão
Não é sempre, mas vez ou outra:
Eu rezo.
Aproximo o suficiente para produzir o calor.
Desconstruo paredes.
Ofereço e acolho.
Não é sempre, mas foi uma única vez,
Eu vi meu amor perdido na multidão!
Eu olho um sorriso e vejo um dente triste.
Eu escuto palavras, mas ouço o silêncio.
Observos meros ou únicos encontros.
Acho que luz em excesso me maltrata a visão,
Não é sempre, mas de vez em quando:
Eu olho pra saudade e vejo o amor,
Eu escuto palavras, mas ouço a voz
Eu procuro em mim a pista de um cheiro
E continuo lado a lado com a solidão
Não é sempre, mas vez ou outra:
Eu rezo.
Aproximo o suficiente para produzir o calor.
Desconstruo paredes.
Ofereço e acolho.
Não é sempre, mas foi uma única vez,
Eu vi meu amor perdido na multidão!
segunda-feira, 15 de março de 2010
Sinceramente?
Tem horas que eu simplesmente vou.
Depois eu canso e aí eu paro.
Parei!
E dessa vez, por incrível que pareça foi em frente a TV. Raramente faço isso.
Tem me faltado a paciência necessária.
Mas parei e assisti.
Era uma cena da Lilia Cabral (não me lembro o nome da personagem dela) com a sua filha Izabel (não me lembro o nome da atriz) e apesar de não entender absolutamente nada sobre artes cênicas arriscaria um palpite arbitrário que as interpretações pareciam bem um duelo de titãs.
O fato é que a Lília Cabral tentava “endireitar” sua filha, só que para isso destilava impiedosas e amargas palavras como se não houvesse outra possibilidade que não fosse a de destituir-lhe a alma.
No ódio estampado nos olhos de Izabel reluzia uma mãe cega. Completamente cega. Incapaz de ver um vestígio sequer da amargura com que ela impregnava o ambiente. Só a filha merecia!
Esta por sua vez, filha de quem era, não deixou barato, mas ainda que tenha respondido à altura, guardava com a tampa do baú escancarada uma única ressalva: era ela a filha.
Faltou um ouvido e ela gritaria pela sua ânsia de ser olhada, mas a mãe estava surda.
Não para a filha. Para o que dela ela não suportava ver inventado na filha...
Seria, de fato, a Izabel tão ruim?
Assim que a cena acabou eu me perguntei
E depois de me perguntar silenciei.
Silenciada pensei.
Sinceramente?
Um peixe fora d'água foi como me enxerguei!
Depois eu canso e aí eu paro.
Parei!
E dessa vez, por incrível que pareça foi em frente a TV. Raramente faço isso.
Tem me faltado a paciência necessária.
Mas parei e assisti.
Era uma cena da Lilia Cabral (não me lembro o nome da personagem dela) com a sua filha Izabel (não me lembro o nome da atriz) e apesar de não entender absolutamente nada sobre artes cênicas arriscaria um palpite arbitrário que as interpretações pareciam bem um duelo de titãs.
O fato é que a Lília Cabral tentava “endireitar” sua filha, só que para isso destilava impiedosas e amargas palavras como se não houvesse outra possibilidade que não fosse a de destituir-lhe a alma.
No ódio estampado nos olhos de Izabel reluzia uma mãe cega. Completamente cega. Incapaz de ver um vestígio sequer da amargura com que ela impregnava o ambiente. Só a filha merecia!
Esta por sua vez, filha de quem era, não deixou barato, mas ainda que tenha respondido à altura, guardava com a tampa do baú escancarada uma única ressalva: era ela a filha.
Faltou um ouvido e ela gritaria pela sua ânsia de ser olhada, mas a mãe estava surda.
Não para a filha. Para o que dela ela não suportava ver inventado na filha...
Seria, de fato, a Izabel tão ruim?
Assim que a cena acabou eu me perguntei
E depois de me perguntar silenciei.
Silenciada pensei.
Sinceramente?
Um peixe fora d'água foi como me enxerguei!
domingo, 7 de março de 2010
Descarrego
Eu odeio fazer o que eu não quero quando o não quero é realmente uma falta de escolha.
Eu odeio quando tenho que desistir por ser esta a única saída plausível
Eu odeio não depender única e exclusivamente de mim.
Eu odeio ter um monte de coisas a dizer e ter que engoli-las, letra por letra
Eu odeio quando as coisas não acontecem do jeito que eu quero
Odeio quando o meu coração dói e sou obrigada esperar dia após dia para que a dor amenize
Eu fico puta da vida quando a vida me desobedece
Se ela é minha deveria cumprir o que eu mando
Odeio o tempo que desacelera e o dia que leva uma eternidade pra passar
Eu odeio sentir as amígdalas doer da raiva que eu não gritei
Odeio rir quando eu quero chorar
Odeio carregar o coração apertado dentro do peito
Eu odeio ter que seguir só quando gostaria de continuar acompanhada!
Eu odeio!!
Eu odeio quando tenho que desistir por ser esta a única saída plausível
Eu odeio não depender única e exclusivamente de mim.
Eu odeio ter um monte de coisas a dizer e ter que engoli-las, letra por letra
Eu odeio quando as coisas não acontecem do jeito que eu quero
Odeio quando o meu coração dói e sou obrigada esperar dia após dia para que a dor amenize
Eu fico puta da vida quando a vida me desobedece
Se ela é minha deveria cumprir o que eu mando
Odeio o tempo que desacelera e o dia que leva uma eternidade pra passar
Eu odeio sentir as amígdalas doer da raiva que eu não gritei
Odeio rir quando eu quero chorar
Odeio carregar o coração apertado dentro do peito
Eu odeio ter que seguir só quando gostaria de continuar acompanhada!
Eu odeio!!
sábado, 6 de março de 2010
O menino rei
Era uma vez um menino que sonhou em ser valente. E só de sonhar, assim se fez.
Tão valente que era, esqueceu-se de sonhar também com a outra metade da valentia, a fragilidade.
O menino acordou achando que era ele o único herói a precisar de um descanso e assim, sentiu-se menos herói.
Ficou pela metade. E com meio olho somente, o menino não pôde ver...
Não viu que só se é valente por inteiro quando também se é frágil.
Deixou de enxergar que sempre que encontrava com os outros heróis e eles estavam prontos pra batalha, era porque em algum outro momento já haviam deixado repousar em si sua fragilidade.
E por não perceber isso, justamente no momento em que estava com a melhor espada na mão, o menino achou que não era mais tão guerreiro.
Sentiu-se acuado e recolheu-se silenciosamente.
Temia mostrar ao mundo o que o mundo já sabia: todo herói tem o seu dia de menino.
Guardou as espadas numa redoma como recordação do herói que ele pensava não mais poder ser.
De tão humano o herói menino até se esqueceu que humano ele era.
Cresceu uma época e depois de crescer reinventou-se sonhando em ser rei.
Sonhou um sonho muito bem planejado, mas esqueceu-se apenas de sonhar com o dia em que aprenderia sê-lo.
Sob as mais belas vestimentas, preparadas as pressas por habilidosas costureiras, o menino pensou que estava pronto e se pôs de rei o mais rápido que pôde.
No seu palácio divertiu-se sem pudores.
Acontece que como o menino não sonhara com o dia de aprender, não sabia que apenas meio olho estava a lhe servir. Mais uma vez ele não conseguiu ver.
Escapou-lhe das retinas a delicada condução que a vida lhe fez até esse indispensável passo para a realização do sonho: o dia de aprender a ser rei.
O menino encolheu.
Imediatamente o céu pôs-se a chorar.
Cada gota de chuva que caia impregnava o mundo de um lamento dolorido, pois este carecia de heróis e reis que fossem um pouco mais valentes e para isso só sendo tão inteiros quanto os homens corajosos que o mundo, lamentoso, aguardava quase impacientemente.
Tão valente que era, esqueceu-se de sonhar também com a outra metade da valentia, a fragilidade.
O menino acordou achando que era ele o único herói a precisar de um descanso e assim, sentiu-se menos herói.
Ficou pela metade. E com meio olho somente, o menino não pôde ver...
Não viu que só se é valente por inteiro quando também se é frágil.
Deixou de enxergar que sempre que encontrava com os outros heróis e eles estavam prontos pra batalha, era porque em algum outro momento já haviam deixado repousar em si sua fragilidade.
E por não perceber isso, justamente no momento em que estava com a melhor espada na mão, o menino achou que não era mais tão guerreiro.
Sentiu-se acuado e recolheu-se silenciosamente.
Temia mostrar ao mundo o que o mundo já sabia: todo herói tem o seu dia de menino.
Guardou as espadas numa redoma como recordação do herói que ele pensava não mais poder ser.
De tão humano o herói menino até se esqueceu que humano ele era.
Cresceu uma época e depois de crescer reinventou-se sonhando em ser rei.
Sonhou um sonho muito bem planejado, mas esqueceu-se apenas de sonhar com o dia em que aprenderia sê-lo.
Sob as mais belas vestimentas, preparadas as pressas por habilidosas costureiras, o menino pensou que estava pronto e se pôs de rei o mais rápido que pôde.
No seu palácio divertiu-se sem pudores.
Acontece que como o menino não sonhara com o dia de aprender, não sabia que apenas meio olho estava a lhe servir. Mais uma vez ele não conseguiu ver.
Escapou-lhe das retinas a delicada condução que a vida lhe fez até esse indispensável passo para a realização do sonho: o dia de aprender a ser rei.
O menino encolheu.
Imediatamente o céu pôs-se a chorar.
Cada gota de chuva que caia impregnava o mundo de um lamento dolorido, pois este carecia de heróis e reis que fossem um pouco mais valentes e para isso só sendo tão inteiros quanto os homens corajosos que o mundo, lamentoso, aguardava quase impacientemente.
quarta-feira, 3 de março de 2010
Ânsia
Acordei
Trabalhei
Protagonizei
Posicionei
Segui a caminhar
Pé ante pé até chegar
Sentei
Almocei
Levantei
Senti o coração a reclamar
Mão no peito pra amenizar
Entrei
Compartilhei
Movimentei
Parei para o fôlego retomar
E num mar de gente me vi a flutuar
Paguei
Sonhei
Aterrisei
Mais uma noite a estudar
A espreita o amor a resmungar
Encontrei
Voltei
Liguei
Vida em mim não há de faltar
Mas é preciso saber encarar
Retomei
Alimentei
Fechei
Não só o indigesto dá vontade de vomitar
O excesso também me faz o estômago embrulhar!
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Assim
Foi com imenso pesar que ela se despediu da história que se ia bem antes de começar.
Não era o tipo de final que costumava apreciar
Mas deu-se conta de que em certos momentos é necessário se conformar.
Não queria tudo, embora com pouco não conseguisse ficar
Desejou ardentemente vê-lo desabrochar
E afogada num mar de lágrimas pôs-se a gargalhar
Não havia do que se lamentar
Ela fez o que pode para que seu menino se deixasse amar
E o menino escolheu a solidão como par
Ela queria ouvir, mas ele não queria falar
E de tanto não falar, deu à verdade a possibilidade de se revelar
Ela tentou disfarçar
Até riu novamente para o fim driblar
Não houve como evitar
Estava ele a se pronunciar
As palavras ficaram presas no ar
E o coração dela a palpitar
Ela foi querendo voltar
Partiu porque não podia ficar
Seguiu porque não queria parar...
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Digressão
Eu não sei se as minhas palavras me pertencem ou se sou eu quem pertence a elas.
Passei da idade de precisar me afirmar pra depois me aproximar.
Realizei que só de mim eu jamais seria eu.
Só a partir dos vocês que há em mim encontro o que de mais legítimo é meu.
Des-cobri a verdade da minha necessidade. Vivo lendo, mas só existo quando sou lida.
Não sirvo para as linhas retas. Odeio abdicar das delicadas nuances que só existem quando o movimento é circular.
Escrevo pra materializar....
Eu senti o ar!
Abracei com ternura a coragem que me faltou e, estranhamente, encostei-me à força do meu amor.
Entendi que para haver tranquilidade não é preciso felicidade.
No outro cômodo da sua casa mora a lealdade.
Deparei-me com uma estranha liberdade.
Foi só no limite que encontrei a amplitude.
Quietude.
De tanta desilusão eu até cresci.
Eu reinvento meus sonhos, e daí?
Passei da idade de precisar me afirmar pra depois me aproximar.
Realizei que só de mim eu jamais seria eu.
Só a partir dos vocês que há em mim encontro o que de mais legítimo é meu.
Des-cobri a verdade da minha necessidade. Vivo lendo, mas só existo quando sou lida.
Não sirvo para as linhas retas. Odeio abdicar das delicadas nuances que só existem quando o movimento é circular.
Escrevo pra materializar....
Eu senti o ar!
Abracei com ternura a coragem que me faltou e, estranhamente, encostei-me à força do meu amor.
Entendi que para haver tranquilidade não é preciso felicidade.
No outro cômodo da sua casa mora a lealdade.
Deparei-me com uma estranha liberdade.
Foi só no limite que encontrei a amplitude.
Quietude.
De tanta desilusão eu até cresci.
Eu reinvento meus sonhos, e daí?
sábado, 13 de fevereiro de 2010
Se a gratidão falasse, com certeza essas seriam suas palavras
Amado amigo,
Eu ainda estou tentando entender tudo isso...
Ouço agora, com clareza, tudo o que vc não me disse e todas as palavras que estavam escondidas no intervalos das frases que dissemos um ao outro.
Eu sei que vc está com Deus, seja ele quem for. Sei também que, apesar da dor que me corrói a alma nesse momento, você cumpriu o que tinha a cumprir com muita dignidade e invejável coragem.
Eu não vou fazer barulho e nem me meter a besta em perguntar.
Embreagada pelo som do teu sorriso e emaranhada na teia de tuas palavras, seguirei adiante.
Silenciosa.
Ainda que todas as certezas me apanhem, eu jamais desistirei!
Na girada, o chão trincou e o mundo desabou.
Eu dormi e acordei e o pesadelo não acabou.
Eu fui. Mas voltei!
Peguei a ampulheta e a revirei.
"Sonho que se lembra é aquele que se acorda na metade. E o que foi até o fim, não é sonho. É realidade."*
Seguiremos juntos. Você é parte de mim. Agradecerei todos os dias da minha existência por ter sido direcionada, pela vida, à você. Ainda que, de certa maneira, eu o perca agora, o que ganhei de você jamais perderei.
E te devolverei.
Honrarei esses ensinamentos com toda a força da minha alma.
Vou reconstruir o meu mundo pra viver com você de um jeito diferente. Com menos pesadelo e mais consciência.
E se alguém me perguntar, responderei orgulhosa:
“É isso mesmo: Eu sonho, e daí?”
Para o Tizão (in memoriam)
* NARDI, Rcardo Ortiz de. Quest'anno è mio! . http://tizao.blogspot.com/. (15/01/10)
Eu ainda estou tentando entender tudo isso...
Ouço agora, com clareza, tudo o que vc não me disse e todas as palavras que estavam escondidas no intervalos das frases que dissemos um ao outro.
Eu sei que vc está com Deus, seja ele quem for. Sei também que, apesar da dor que me corrói a alma nesse momento, você cumpriu o que tinha a cumprir com muita dignidade e invejável coragem.
Eu não vou fazer barulho e nem me meter a besta em perguntar.
Embreagada pelo som do teu sorriso e emaranhada na teia de tuas palavras, seguirei adiante.
Silenciosa.
Ainda que todas as certezas me apanhem, eu jamais desistirei!
Na girada, o chão trincou e o mundo desabou.
Eu dormi e acordei e o pesadelo não acabou.
Eu fui. Mas voltei!
Peguei a ampulheta e a revirei.
"Sonho que se lembra é aquele que se acorda na metade. E o que foi até o fim, não é sonho. É realidade."*
Seguiremos juntos. Você é parte de mim. Agradecerei todos os dias da minha existência por ter sido direcionada, pela vida, à você. Ainda que, de certa maneira, eu o perca agora, o que ganhei de você jamais perderei.
E te devolverei.
Honrarei esses ensinamentos com toda a força da minha alma.
Vou reconstruir o meu mundo pra viver com você de um jeito diferente. Com menos pesadelo e mais consciência.
E se alguém me perguntar, responderei orgulhosa:
“É isso mesmo: Eu sonho, e daí?”
Para o Tizão (in memoriam)
* NARDI, Rcardo Ortiz de. Quest'anno è mio! . http://tizao.blogspot.com/. (15/01/10)
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Sabidez
Ela tinha certo apreço pelo contato.
Talvez só porque fosse friorenta e encostar-se ao outro proporcionava o carinho que faltava.
Talvez porque fosse insegura.
Talvez.
A afirmação diluiu-se na incerteza. Não do apreço pelo contato, mas tão somente de seu por que.
Apreciava também a visão.
Observava cautelosamente os acontecimentos.
Era capaz de rastrear com os olhos os mais discretos detalhes de uma cena, mas os perdia quando, da observação, tirava um meio de aproximação.
Olho no olho.
Aproximação do tato.
Tato com.
Contato.
A verdade é que ela era um pouco egoísta nesse assunto.
Pegava e pronto.
Obviamente, sabida que era, aproveitava muitas chances de acarinhar o outro para satisfazer a si mesma.
Ela lia o corpo. E lia também com o corpo.
Corpo a corpo.
Talvez só porque fosse friorenta e encostar-se ao outro proporcionava o carinho que faltava.
Talvez porque fosse insegura.
Talvez.
A afirmação diluiu-se na incerteza. Não do apreço pelo contato, mas tão somente de seu por que.
Apreciava também a visão.
Observava cautelosamente os acontecimentos.
Era capaz de rastrear com os olhos os mais discretos detalhes de uma cena, mas os perdia quando, da observação, tirava um meio de aproximação.
Olho no olho.
Aproximação do tato.
Tato com.
Contato.
A verdade é que ela era um pouco egoísta nesse assunto.
Pegava e pronto.
Obviamente, sabida que era, aproveitava muitas chances de acarinhar o outro para satisfazer a si mesma.
Ela lia o corpo. E lia também com o corpo.
Corpo a corpo.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Dois mil e dez com alegria
Lá vêm elas novamente
Palavras insolentes
Brincando em roda inocente
No horizonte tal e qual um sol nascente.
Chega tudo ao mesmo tempo
Vem o sol, vai o lamento
A luz afasta o firmamento
E do céu a estrela cai no pensamento.
Vamos recomeçar...
No compasso do meu coração eu quero meus pés levar
Nas ondas do mar meus ouvidos repousar
Sobre a areia minha alma deitar
Para a pele o sol acarinhar.
Do trabalho quero a essência da emoção
Do amor a mais doce tentação
Aos amigos minha eterna gratidão
Pro ano novo alegria sem razão!
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Para o Tizão
Inúmeras vezes, enquanto ando pelas ruas, as palavras brincam dentro de mim sem censura alguma.
Elas dançam. Pulam de um lado a outro. Chegam juntas, umas das outras, em pequenas frases.
E basta apenas o instante seguinte para que se reorganizem de forma jamais vista.
Dai-me as palavras!
É assim que elas inventam nomes novos para sentimentos velhos.
Tão antigos quanto eu e você...
O que seria de nós, meu amigo, sem as nossas palavras? Que meio encontraríamos nós, para levar à comunhão as nossas almas?
Tudo bem que não troquemos palavras sobre o que de fato gostaríamos de falar. Isto pouco nos faz falta, porque na verdade o que mais nos diz respeito é justamente o intervalo que há entre elas.
Você ouviu o que eu não disse?
Não há equilíbrio para certas pessoas... Somente a tensão do desequilíbrio as fazem vivas.
Há no caminho do meio algo insosso. Falta justamente o sal que abre o sabor, o azedo que faz explodir a saliva escondida na boca...
Só serve para o caminho do meio aquele que não sabe o mal que guarda em si enquanto escolhe praticar o bem.
Há, no caminho dos desequilibrados, apenas a possibilidade do bom posicionamento.
Simples: raízes na terra e copa aos céus.
As flores?
Deixe-as ao vento...
Inúmeras vezes, enquanto ando pelas ruas, as palavras brincam dentro de mim sem censura alguma.
Elas dançam. Pulam de um lado a outro. Chegam juntas, umas das outras, em pequenas frases.
E basta apenas o instante seguinte para que se reorganizem de forma jamais vista.
Dai-me as palavras!
É assim que elas inventam nomes novos para sentimentos velhos.
Tão antigos quanto eu e você...
O que seria de nós, meu amigo, sem as nossas palavras? Que meio encontraríamos nós, para levar à comunhão as nossas almas?
Tudo bem que não troquemos palavras sobre o que de fato gostaríamos de falar. Isto pouco nos faz falta, porque na verdade o que mais nos diz respeito é justamente o intervalo que há entre elas.
Você ouviu o que eu não disse?
Não há equilíbrio para certas pessoas... Somente a tensão do desequilíbrio as fazem vivas.
Há no caminho do meio algo insosso. Falta justamente o sal que abre o sabor, o azedo que faz explodir a saliva escondida na boca...
Só serve para o caminho do meio aquele que não sabe o mal que guarda em si enquanto escolhe praticar o bem.
Há, no caminho dos desequilibrados, apenas a possibilidade do bom posicionamento.
Simples: raízes na terra e copa aos céus.
As flores?
Deixe-as ao vento...
domingo, 19 de julho de 2009
A dor
Não que eu a quisesse por perto.
Levantei as espadas e engrossei as ondas.
Na terra molhada, aquela mesma de onde toda a vida brota,
tentei enterrá-la.
Mera tentativa de esconder de mim mesma a dor que ardia no peito.
Desalento
Tentei abraçá-la calmamente, na tentativa de então acolhê-la em mim.
Talvez acolhida ela doesse menos.
Desamparo
Ela veio calma, precisa. Logo após o término da tempestade.
E assim, despretenciosamente, misturada à delicadeza de um sorriso e a leveza de uma lágrima, explodiu!
Desespero
Eu chorei. Desta vez sem rir.
Agonizei sem o meu próprio grito ouvir.
Desejei com as mãos a dor do peito extinguir.
Rezei
E nem todas as rezas me deixaram o sono dormir.
Foi só assim que me dei conta de que em algum lugar eu morri.
Levantei as espadas e engrossei as ondas.
Na terra molhada, aquela mesma de onde toda a vida brota,
tentei enterrá-la.
Mera tentativa de esconder de mim mesma a dor que ardia no peito.
Desalento
Tentei abraçá-la calmamente, na tentativa de então acolhê-la em mim.
Talvez acolhida ela doesse menos.
Desamparo
Ela veio calma, precisa. Logo após o término da tempestade.
E assim, despretenciosamente, misturada à delicadeza de um sorriso e a leveza de uma lágrima, explodiu!
Desespero
Eu chorei. Desta vez sem rir.
Agonizei sem o meu próprio grito ouvir.
Desejei com as mãos a dor do peito extinguir.
Rezei
E nem todas as rezas me deixaram o sono dormir.
Foi só assim que me dei conta de que em algum lugar eu morri.
sábado, 16 de maio de 2009
Deveria existir uma palavra entre o bem e o mal. Final
Mas o que tudo isso tem a ver com bem e mal?
Eu não sei por que fazemos assim. Não sei o que nos impede de contemplar um caminho do meio.
Da mesma maneira como fomos rachando ao meio os valores da nossa cultura, parecemos ter deixado rachar também nosso olhar e nossas experiências. Não dá mais!
É preciso, em meio ao turbilhão um instante de recolhimento. É preciso recobrar a coexistência de nós em nós mesmos e seguir adiante.
Há, entre o bem e o mal um caminho inteiro a ser descoberto...
Eu não sei por que fazemos assim. Não sei o que nos impede de contemplar um caminho do meio.
Da mesma maneira como fomos rachando ao meio os valores da nossa cultura, parecemos ter deixado rachar também nosso olhar e nossas experiências. Não dá mais!
É preciso, em meio ao turbilhão um instante de recolhimento. É preciso recobrar a coexistência de nós em nós mesmos e seguir adiante.
Há, entre o bem e o mal um caminho inteiro a ser descoberto...
sábado, 9 de maio de 2009
Deveria existir uma só palavra entre o bem e o mal. Parte II
Enquanto eu lia o texto passei também a considerar a profissão da escrita.
Como todas as outras, impossível de se realizar em si mesma. Não há escritor se não houver quem o leia, assim como não há professor se não houver alunos que dele precisem.
Desde os primórdios da nossa história as profissões foram ocupando degraus em uma espécie de podium. Não de colocações propriamente ditas, como acontece nas competições, mas de status. A falta de aprofundamento dos capítulos anteriores da história não me permite apontar os critérios adotados na época, ainda assim, pelo pouco que me aproximei pude constatar que pouco mudou.
Aos artistas, no entanto, sempre coube um lugar peculiar. Embora os artistas vivam de seu trabalho, a arte propriamente dita parece estar em um lugar para o qual não há uma designação tão clara. Considerá-la como profissão tiraria seu encanto? Quem encantou a arte? Quem a fez ou quem a contemplou? Seria o encantamento fruto de um encontro de ambas as partes?
O fato é que não só a arte, mas principalmente os artistas também foram escritos artisticamente. Enquanto escrevo essa pequena reflexão novas imagens vão se aproximando, mas desta vez são imagens vistas em uma aula de história da arte.
O professor nos contava a história de Van Gogh enquanto víamos alguns de seus trabalhos. Havia ali uma nuvem misteriosa que sem palavras parecia contar o quanto era preciso ser louco para pintar o que ele pintou.
Não me parece recente a ideia de que os artistas pouco atendem à sua razão, e que se o fizessem perderiam todo o encanto, ou o poder de encantar. Aqui me sobra uma importante questão: onde foi que entendemos que a razão não faz bem ao coração? Por que a desconsideramos do campo das emoções?
Parece-me haver aqui um equívoco, uma mistura de razão com desumanização, algo que neste momento me deixa discretamente perplexa tendo em vista ser esta uma das características fundantes do homem. Sem a razão, sem o pensamento lógico, a organização mental, o que seria de nós? Conseguiríamos, ainda assim, produzir algo tocante ou deixar que algo nos tocasse?
Acho que há uma urgente necessidade de limparmos nossas idéias. É preciso rever nossas construções, desconstruir pré-conceitos equivocados e reconstruir nossos conceitos.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Deveria existir uma só palavra entre o bem e o mal
Era fim de tarde e me sentei para ler. Peguei o texto e uma caneta, pois segurá-la parece ser a maneira mais rápida e eficiente de manter também o meu corpo, além das minhas ideias, envolvido com o afazer. Lá fui eu e enquanto lia as palavras de Edgar Allan Poe sobre a composição de seu poema O Corvo outras idéias também iam me invadindo a mente. Imagens das nossas aulas foram se apropriando de mim enquanto eu tentava me apropriar do texto. Inspiração, dom, arte, escrita e assim por diante. De repente me vi perguntando: Por que seria a beleza de um poema menos bela ao saber-lhe uma equação matemática? Não tem a matemática também sua beleza?E foi assim que mais uma ideia, não muito clara, começou a brotar. Há algo na nossa cultura que alimenta constantemente uma cisão entre o bem e o mal, o certo e o errado. Há algo que não posso nomear ainda, mas que me faz ver que somos muito mais frutos desta cultura do que imaginamos. Nós somos a nossa cultura, somos mais um capítulo de uma história que continua. Parece-me que dentro do nosso inesgotável universo humano algumas coisas se instauraram e perpetuam com tanta delicadeza que quase não podemos percebê-las. Assim como criamos nossos mitos, criamos e sustentamos também determinadas criações como se fosse algo além da nossa capacidade. Há uma evidente necessidade de que algo maior se coloque adiante e assim nós, juntamente com os escritores mais “vaidosos” ficamos discretamente estancados em papéis imóveis, embalados em uma película de coexistência.
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Eu não tinha pensado nisso
Agora queria saber se, ao escrever, as escolhas que faz do "como dizer" traduzem o que você observou. Ou seja, as escolhas ocorrem em função da beleza ou da precisão? Como você negocia isso? Entende o que digo?
Márcia Fortunato
Márcia Fortunato
Sabe Márcia, eu ainda não tinha pensado neste assunto com tanta clareza quanto a que você fez a pergunta.
Quando comecei a escrever eu tinha apenas ideia de onde queria chegar, mas agora, trocando em miúdos, não me resta dúvida de que estava atrás da precisão.
De nada me seria útil a minha escrita fosse ela frouxa, com intermináveis variantes. Pouco ela me esclareceria se não trouxesse consigo combinações de palavras cuidadosamente planejadas.
Eu não escrevo sempre do mesmo jeito até porque eu não escrevo sempre sobre o mesmo assunto, mas em todos os casos a precisão me parece imprescindível.
Tenho um apreço particular por ela. Não pelo seu caráter urgente, de precisar tanto que se torna um precisar grande: precisão.
Eu gosto da fina justeza que ela guarda em si, nem mais nem menos. Seria então exatidão? Quem sabe...
Sobre a beleza? Bom seria se pudesse sempre incluí-la, mas algumas vezes escrevo também sobre assuntos ou situações onde ela não cabe. Pelo menos em um primeiro momento. Quem sabe uma busca minuciosamente precisa faça-a brotar por fim?
Thais Abrahão
quarta-feira, 8 de abril de 2009
O Encontro
Conforme escrevo, vejo assim aparecer diante de mim a mais pura forma humana. A escrita é do homem e somente para ele. Qualquer que seja seu caminho só há uma maneira de alcançá-la: ser humano.
Sim, há diferença nos caminhos. Mais que isso, há também no homem a profunda necessidade de nomear. Afinal de contas, sobre o que escreveria não fosse sobre suas brilhantes criações? E como dela falariam não fossem seus singulares nomes?
A escrita é por si só a mais profunda criação humana, ou seja, a construção da escrita só é viável a partir da mão de um homem e, a meu ver não há homem que não seja um misto de duas poções que se arranjam em equilíbrio peculiar para cada um.
Não há um único tecido que se faça de apenas um fio. Para haver um tecido é necessária uma trama de muitos fios, assim como para haver um texto é necessária uma costura da razão com emoção.
O homem é o tecido que se forma desta trama costurada cuidadosamente e assim como há uma imensa variedade de tecidos, há também a enorme variação de estilos.
Acredito que hajam aqueles que lêem racionalmente. Para estes determinados textos.
Outros escrevem emocionalmente e assim criam textos nunca dantes lidos.
É preciso, sem nenhuma dúvida, saber-se homem para escrever. É necessário aproximar-se de si mesmo. Os escritores são feitos de leitores e vice-versa. Para saber o que escrever é preciso saber do outro e só se pode saber do outro quando se sabe de si.
Sim, os caminhos que compõem o processo de criação podem ser inúmeros. Nem mesmo entre os que escrevem de maneira semelhante há um consenso.
Cada um à sua maneira e sempre no um há de se encontrarem todos.
Sim, há diferença nos caminhos. Mais que isso, há também no homem a profunda necessidade de nomear. Afinal de contas, sobre o que escreveria não fosse sobre suas brilhantes criações? E como dela falariam não fossem seus singulares nomes?
A escrita é por si só a mais profunda criação humana, ou seja, a construção da escrita só é viável a partir da mão de um homem e, a meu ver não há homem que não seja um misto de duas poções que se arranjam em equilíbrio peculiar para cada um.
Não há um único tecido que se faça de apenas um fio. Para haver um tecido é necessária uma trama de muitos fios, assim como para haver um texto é necessária uma costura da razão com emoção.
O homem é o tecido que se forma desta trama costurada cuidadosamente e assim como há uma imensa variedade de tecidos, há também a enorme variação de estilos.
Acredito que hajam aqueles que lêem racionalmente. Para estes determinados textos.
Outros escrevem emocionalmente e assim criam textos nunca dantes lidos.
É preciso, sem nenhuma dúvida, saber-se homem para escrever. É necessário aproximar-se de si mesmo. Os escritores são feitos de leitores e vice-versa. Para saber o que escrever é preciso saber do outro e só se pode saber do outro quando se sabe de si.
Sim, os caminhos que compõem o processo de criação podem ser inúmeros. Nem mesmo entre os que escrevem de maneira semelhante há um consenso.
Cada um à sua maneira e sempre no um há de se encontrarem todos.
quarta-feira, 18 de março de 2009
Te digo o que escrevo e me dizes quem sou? Te digo o que leio e me dizes quem és?
Eu já compreendi a minha vida, e em última instância a mim mesma, de várias maneiras e sob diversos aspectos. Já me busquei na história, me procurei na condição de ser humana e me desintegrei para compor um som qualquer com o corpo.
Hoje, exatamente hoje, me achei de um jeito que nunca havia encontrado. Cuidadosamente tecida entre tantas palavras, minhas ou emprestadas, escritas ou faladas, vou me escrevendo de maneira nunca antes experimentada.
Já não posso mais me saber sem escrever. Nem sem ler.
Eu leio muito e de diversas maneiras. Leio o que é comum, mas que ao se mostrar aos meus olhos passa a ser somente meu. Eu leio escritos e implícitos. Palavras e imagens. Expressões e interações. Junções harmoniosas de letras que sozinhas não me permitiriam ler e reler os caminhos, os universos e até mesmo as meras informações. Embora eu não leia nas linhas das mãos toda a vida que ainda está por vir eu também já li com elas.
É na escrita que eu me escapo.
No manejo das palavras nem sempre encontro a precisão delicada que procuro, nas atitudes escrevo com marcas uma Thais completamente vulnerável à leitura alheia. Há um outro, muitos outros... Assim como não há leitura sem escrita eu também não me pareço inteira sem alguém.
Daí eu escrevo e em uma espécie de amarração de fios, de letras, vejo nascer vagarosamente, deitada sobre a folha do papel uma outra que eu desconhecia e diante dela me ponho a ler novamente.
E no recomeço sem fim há uma espécie de “acontescência” de mim. Um encontro indizível e inevitável que se dá no tempo da espera que repousa lenta e devagar. Ou seria a divagar?
Hoje, exatamente hoje, me achei de um jeito que nunca havia encontrado. Cuidadosamente tecida entre tantas palavras, minhas ou emprestadas, escritas ou faladas, vou me escrevendo de maneira nunca antes experimentada.
Já não posso mais me saber sem escrever. Nem sem ler.
Eu leio muito e de diversas maneiras. Leio o que é comum, mas que ao se mostrar aos meus olhos passa a ser somente meu. Eu leio escritos e implícitos. Palavras e imagens. Expressões e interações. Junções harmoniosas de letras que sozinhas não me permitiriam ler e reler os caminhos, os universos e até mesmo as meras informações. Embora eu não leia nas linhas das mãos toda a vida que ainda está por vir eu também já li com elas.
É na escrita que eu me escapo.
No manejo das palavras nem sempre encontro a precisão delicada que procuro, nas atitudes escrevo com marcas uma Thais completamente vulnerável à leitura alheia. Há um outro, muitos outros... Assim como não há leitura sem escrita eu também não me pareço inteira sem alguém.
Daí eu escrevo e em uma espécie de amarração de fios, de letras, vejo nascer vagarosamente, deitada sobre a folha do papel uma outra que eu desconhecia e diante dela me ponho a ler novamente.
E no recomeço sem fim há uma espécie de “acontescência” de mim. Um encontro indizível e inevitável que se dá no tempo da espera que repousa lenta e devagar. Ou seria a divagar?
segunda-feira, 16 de março de 2009
Inspiração? Quem sabe...
Estava eu visitando o blog da Carol (sem ciúmes pessoa...) quando de repente me senti invadida por tal provocação... Ou seria inspiração?
Lindo poema de Drummond, inesquecível frase de Manuel de Barros e curioso depoimento sobre Jorge Amado.
O fato é que na escrita da Carol li pedaços da minha própria história.
Eu também morei em Londres. Passei um ano da minha vida sob o céu cinza daquela intrigante cidade.
Não levei livros. Comprei alguns que eram escritos na língua local, que por sinal eu tentava aprender com a mesma persistência necessária para quem aprende a falar pela primeira vez.
Meu repertório, apesar de restrito, foi suficiente para estabelecer como critério irrevogável os temas que me interessavam. “Gostar do assunto e entender um pouco dele já vai dar uma ajuda”, pensei ainda em português.
Levei-os para casa. Não que me aquecessem, mas me ajudavam aplacar um pouco a solidão.
Para me aquecer eu pedia, sempre com urgente necessidade, que minha mãe mandasse pacotes de feijão. O bom e verdadeiro feijão brasileiro que eu cozinhava com o mesmo prazer que me invade quando “como” um bom livro com os olhos.
A solidão não era pouca e daqueles que comprei li todos. Hoje escrevo e leio inglês muito melhor do que falo.
Seria assim a inspiração? Uma espécie de encontro da provocação com a identificação? Algo de fora que encontra uma acomodação justa com algo de dentro?
Lindo poema de Drummond, inesquecível frase de Manuel de Barros e curioso depoimento sobre Jorge Amado.
O fato é que na escrita da Carol li pedaços da minha própria história.
Eu também morei em Londres. Passei um ano da minha vida sob o céu cinza daquela intrigante cidade.
Não levei livros. Comprei alguns que eram escritos na língua local, que por sinal eu tentava aprender com a mesma persistência necessária para quem aprende a falar pela primeira vez.
Meu repertório, apesar de restrito, foi suficiente para estabelecer como critério irrevogável os temas que me interessavam. “Gostar do assunto e entender um pouco dele já vai dar uma ajuda”, pensei ainda em português.
Levei-os para casa. Não que me aquecessem, mas me ajudavam aplacar um pouco a solidão.
Para me aquecer eu pedia, sempre com urgente necessidade, que minha mãe mandasse pacotes de feijão. O bom e verdadeiro feijão brasileiro que eu cozinhava com o mesmo prazer que me invade quando “como” um bom livro com os olhos.
A solidão não era pouca e daqueles que comprei li todos. Hoje escrevo e leio inglês muito melhor do que falo.
Seria assim a inspiração? Uma espécie de encontro da provocação com a identificação? Algo de fora que encontra uma acomodação justa com algo de dentro?
Quem sabe...
domingo, 15 de março de 2009
eu leio assim
CATAR FEIJÃO
João Cabral de Melo Neto
Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
2.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo
obstrui a leitura flutuante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.
MELO NETO, João Cabral. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.
Proposta: Como você lê?
Ao receber a folha nas mãos rapidamente passei-lhe os olhos. A descida foi em branco, mas na volta fui fisgada pelo nome de João Cabral de Melo Neto.
“Hum, o texto deve ser bom” eu pensei ainda sem ter me dado conta de que mobilizar meus conhecimentos prévios ou até mesmo os pré conceitos sobre o assunto em questão talvez seja um dos primeiros passos de minha leitura.
Prossegui. Mas não em frente. Fiz uma espécie de resgate ao retornar ao título. Embora respeite a ordem natural de um texto quando o leio, muitas vezes eu também passeio por ele. É uma espécie de sobrevôo. O todo e as partes ao mesmo tempo.
Retomei a concentração e me pus a obedecer a tal ordem natural: de cima para baixo, da esquerda para a direita.
Não me preocupei com o entendimento. Aliás, não costumo me ocupar de entender totalmente o que leio em uma primeira leitura. Eu deixo o texto passear em mim. Todos entram pelos olhos, poucos chegam ao coração. Alguns param no estômago e outros se finalizam na razão.
Não sei o que é alguidar eu pensei em algum momento com a esperança de que mais adiante o todo explicasse as partes.
Ao me deparar com o ponto final que encerrava ali as palavras do autor me pus a ler novamente, mas desta vez algo novo brotava em mim.
As imagens foram ganhando contornos mais precisos. Eu continuava sem saber o que alguidar significava, mas já podia compreender seu sentido. Li o texto e me vi secretamente com os feijões nas mãos, da mesma maneira que agora tentava segurar as palavras nas ideias.
Imaginei. E pensando na imaginação entendi a leitura como ação, como algo ativo e vivo. O texto ganhou enfim a merecida vida que lhe cabia.
João Cabral de Melo Neto
Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
2.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo
obstrui a leitura flutuante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.
MELO NETO, João Cabral. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.
Proposta: Como você lê?
Ao receber a folha nas mãos rapidamente passei-lhe os olhos. A descida foi em branco, mas na volta fui fisgada pelo nome de João Cabral de Melo Neto.
“Hum, o texto deve ser bom” eu pensei ainda sem ter me dado conta de que mobilizar meus conhecimentos prévios ou até mesmo os pré conceitos sobre o assunto em questão talvez seja um dos primeiros passos de minha leitura.
Prossegui. Mas não em frente. Fiz uma espécie de resgate ao retornar ao título. Embora respeite a ordem natural de um texto quando o leio, muitas vezes eu também passeio por ele. É uma espécie de sobrevôo. O todo e as partes ao mesmo tempo.
Retomei a concentração e me pus a obedecer a tal ordem natural: de cima para baixo, da esquerda para a direita.
Não me preocupei com o entendimento. Aliás, não costumo me ocupar de entender totalmente o que leio em uma primeira leitura. Eu deixo o texto passear em mim. Todos entram pelos olhos, poucos chegam ao coração. Alguns param no estômago e outros se finalizam na razão.
Não sei o que é alguidar eu pensei em algum momento com a esperança de que mais adiante o todo explicasse as partes.
Ao me deparar com o ponto final que encerrava ali as palavras do autor me pus a ler novamente, mas desta vez algo novo brotava em mim.
As imagens foram ganhando contornos mais precisos. Eu continuava sem saber o que alguidar significava, mas já podia compreender seu sentido. Li o texto e me vi secretamente com os feijões nas mãos, da mesma maneira que agora tentava segurar as palavras nas ideias.
Imaginei. E pensando na imaginação entendi a leitura como ação, como algo ativo e vivo. O texto ganhou enfim a merecida vida que lhe cabia.
segunda-feira, 9 de março de 2009
Escrevendo...
Eu tenho muitos livros...
Neles estão marcadas pra sempre, ou pelo menos até que o papel onde elas se deitam se decomponha, datas importantes como os meus primeiros passos e as minhas preferências por dançar e comer requeijão. Constam neles minhas primeiras palavras faladas, mas não as primeiras palavras que por mim foram escritas.
O acontecimento escapou dos registros escritos que, pelas delicadas mãos de minha mãe e pelo atencioso olhar do meu pai contaram os primeiros capítulos da minha história.
E eu sequer consigo recordar-me aproximadamente quando foi que os li pela primeira vez...
O fato é que os li e prossigo agora escrevendo de próprio punho os capítulos seguintes.
Eu sempre escrevi muito e por diversos motivos. Aprecio o movimento das mãos ao desenhar as letras, mas também esqueço tal capricho quando o que é escrito se joga sobre o papel quase sem a minha permissão. Escrevo para guardar e para compartilhar; para comunicar ou compreender; para refletir e em uma espécie de espelho de papel o meu próprio reflexo enxergar.
A imagem é diferente. Não vem composta de formas bem definidas, mas é humanamente decifrável tal e qual seria um rosto qualquer. Eu me encontro na minha escrita e é através dela que também me desconstruo pra me transformar. Há um movimento constante, algo vivo que faz as letras deixarem de ser apenas letras e serem as minhas letras. Palavras que de tão comuns às vezes se perdem. Já perdi as palavras muitas vezes. Em outros momentos as reencontrei como se nunca as tivesse visto. Algumas eu procuro até hoje e em momentos raros chego a pensar que não existem.
Eu já escrevi sonhos porque os queria mais reais e já escrevi realidades que quando relidas não passavam de sonhos.
Chorei e ri em cima de uma folha de papel. Eu amei e briguei. Lembrei de algo que poderia ter sido esquecido não fosse o fato de estar escrito. Já me emocionei e pulei ao ler palavras que me fizeram bater mais forte o coração.
É assim que eu escrevo. Do mesmo jeito que danço ou como requeijão. Com o corpo inteiro.
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