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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Flagrante



Ela tinha caminhado muito para chegar onde sentia-se estando.
Logo que chegara, dera-se conta de como até então estava apenas começando.
Ela, uma vez, sonhara-se mãe amamentando.


Absorveu-se em si mesma e aconteceu-lhe que não era mais a mesma.
Por onde então andaria o si depois de perder- se dela mesma?

Incomodou-se com a forma como tinha conhecido as palavras, e por não encontrar mais a si mesma naquelas com as quais um dia contou-se, desencantou-se delas.


Espaços infinitos de silêncio abriram-se em sua alma.
Silenciosamente acolheu no ventre sua menina.
E mesmo sem palavras, foi flagrada gestando.

quinta-feira, 7 de abril de 2011








Eu sou professora.

Ontem fui a um encontro com Peter Moss, professor pesquisador da Universidade de Londres.

Antes de ontem eu não o conhecia e o que me levou ao tal encontro foi o seu tema: a Educação Infantil como Projeto Ético e Político.

Todas essas palavras são do meu mais sincero interesse.

Durante o encontro tivemos a notícia de que o projeto de piso salarial dos professores tinha sido aprovado. Causou certa emoção.

Nós, que lá estávamos, pensávamos juntos sobre a Educação das nossas crianças.

Era um inglês que nos falava e que, de alguma maneira, nos dizia que as nossas crianças também eram as crianças dele.

Compartilhamos, por algumas horas, ideias sobre como colaborar para que as minhas, as suas, ou as nossas crianças cresçam e se formem, principalmente, como bons seres humanos.

Nosso mundo está carente deles.

Falamos da escola não como espaço de reprodução da sociedade, mas como um lugar de reinvenção da democracia.

Falamos de diálogo, encontro e interdependência. Ninguém existe sozinho. Um ser humano se faz de outro, ou muitos outros, seres humanos. É só assim que perpetuaremos a espécie.

Eu escolhi ser professora interessada, de alguma maneira, no meu próprio bem estar: o de viver em um mundo mais digno.

Eu escolhi ser professora porque acho um privilégio, dentre todos os seres que compõem essa imensa natureza, ter nascido um ser humano.

Fui às crianças por que são elas quem mais sabem sobre o assunto. E para oferecer-lhes uma troca a altura, passei a esforçar-me, diariamente, para ser um adulto merecedor de conviver com crianças em sua mais tenra idade.

Ontem, de alguma maneira, eu zelei pelas crianças. Hoje, chorei por elas.

Eu ainda não tenho filhos, mas as crianças das famílias do Rio de Janeiro são também as minhas crianças. E foram brutalmente assassinadas dentro de uma escola, lugar onde eu também passo a maior parte do meu tempo e exerço meu maior entusiasmo pela vida.

Depois da notícia fui subitamente invadida por uma perplexidade muda.


































quinta-feira, 24 de março de 2011

Palavreando

Era atraída, no começo dos tempos, pela palavra justiça.
Trilhou o melhor caminho que conseguiu negociar com o próprio destino.
Deparou-se com o justo e suas cabíveis diferenças.
Soube melhor daquela palavra e felicitou-se por não pertencer à lei.
Pisou à frente do que sempre fora.
À ela coube um caminho maior: tempo de desembrulhar-se escancaradamente.
Só ao saber de si teria alguma possibilidade de saber do outro.
Quando encontrou seu lugar descobriu muitos outros. Dos outros.
Mesmo sem saber, ela sabia: nascera da ética.
Gostou muito das novas palavras e acabou transformando-se com elas.
Aprendeu da possibilidade e viu-se, assim, militante da palavra justeza.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011




No meio de um devaneio, de tao perdida quase encontrou-se.
Ela buscava o coracao da palavra no pulsar do proprio coracao.
Realizou que encontrar as palavras do pulsar seria como escrever sem acentuar.
Algo sobre o qual nao se pode ou nao se deve escrever.
Ou, se cometer a ousadia de faze-lo, ficaria a escrita pelo meio.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Interferências do ar

Ciranda Mágica - Sandra Guinle


Começamos a pensar nas despedidas para delas cuidar.
E nessa aterrisagem do fim voltamos a vê-los brincar.
Em busca da melhor aterrisagem nos perguntavam, a todo instante, como voar.
Partimos juntos e fomos sobre a tal pergunta pesquisar.
Estavam em pleno voo enquanto nos pusemos a observar.
Encontravam-se lá as meninas na ponta dos pés a saltitar.
Os meninos faziam as capas balançarem até dançar.
Juntos subiam na jabuticabeira para, depois, de lá de cima pular.
E para as tentativas mais ousadas, teve até susto de fazer a professora perder o ar.
Mas entre fadas e heróis ainda havia muito que buscar.
As pistas de carrinhos nós fomos pegar...
Muita força fez o carrinho derrapar.
Alta velocidade o fez, num belo voo, planar.
Empurrá-los com força só fez o desafio aumentar.
E a cada voo levantado era necessário para a pista regressar.
Juntos fomos descobrindo as diferentes possibilidades de aterrisar.
Teve até uma turma que quis escrever um livro para uma história contar.
Maneira sabida de registrar...
Passo importante para o conhecimento transformar!
E na transformação, o imóvel disco de madeira começou a girar.
Os bichos, antes presos no papel, quiseram se libertar.
Mas pra todo esse movimento foi preciso a força na mão empenhar.
Os sorrisos eram de fazer a nossa retina se enfeitar.
A lente da câmera só fez a imagem em nosso ouvido sussurrar:
Eram das crianças todo aquele pensar!
Às professoras coube a arte de revelar.
E a melhor revelação fez a consciência documentar:
Embriagadas pelo valor de ensinar.
Elucidaram já não serem mais as mesmas que eram antes de tudo brotar.
A proximidade do fim as trouxe também a perspectiva de recomeçar.
Sabendo as crianças como aterrisar, poderiam agora com liberdade voar.
E no meu coração, estejam certos, ficará para sempre um carrossel a rodar!

sábado, 10 de abril de 2010

São Paulo, 9 de abril de 2010.



Meu querido diário,


Foi difícil levantar da cama hoje, sofri à beça.
No intervalo consciente entre o dormir e acordar matinal, o quentinho da cama e as vozes das crianças que já povoavam meus ouvidos, eu consegui tirar o cobertor.
Estava cansada, a semana foi exaustiva...
Frio.
Mas o que eu tinha pela frente era como um encontro com a força mais forte que há de mim em mim: meu trabalho. E nesse caso a expressão “ganha pão” não basta. Talvez “alimento da alma” lhe sirva melhor.
Caminhei a caminhada de todos os dias. Pensei pensamentos estranhos e infinitos.
Cheguei ao destino previsto na hora exata.
Encontrei-me com as crianças conhecidas para desbravarmos juntos um dia que nunca existiu.
Durante a nossa roda de conversa inicial, ao ouvi-los, lembrei-me da belíssima aula que tive sobre autonomia e lembrei-me, em seguida, o quanto amo trabalhar com educação, principalmente por ter assim a possibilidade de me reeducar a cada dia.
Retomei a concentração e voltei a ouvi-los. Estava tudo sendo dito e tudo o que eu precisava fazer era saber ouvir.
Fiz.
Tudo bem que o cobertor tivesse ficado pra trás. Não me faltou calor um minuto sequer.
Calor de vida, porque eu trabalho justamente na ponte por onde as crianças passam quando vão de suas famílias para o mundo.
Eu, de lá de cima  da ponte, olho de um lado e vejo o mundo que temos. Olho para o outro e vejo o mundo que eu quero.
Do lado do mundo que eu quero eu compartilho da vida com pessoas que podem fazer a diferença no mundo que temos. É pra lá que eu vou... Atrás do muro azul.
E a cada coisa que pretendo ensinar-lhes é necessário que eu aprenda ser.
Entende querido diário, que eu não posso parar?
É necessário que eu aprenda ser!
Elas aprendem o que eu ensino, mas compartilham do que eu sou.
Durante a travessia da ponte, passam um ano de suas vidas comigo.
Enquanto estou lá com elas, os vejo construírem seus próprios olhares, estabelecerem relações de confiança, experimentar-se enquanto pessoas, que ainda são pequenas, mas um dia crescerão.
Elas aprendem a subir na árvore debaixo dos meus olhos, aprendem a colocar os sapatos ao meu lado e depois de tanto eu perguntar se estão satisfeitas após o lanche, um dia as vejo levantar dizendo por elas mesmas que o estão.
Eu lhes ensino a levantar depois de cada tombo, lhes ensino a conversar para resolver os problemas e a confiar, lhes ensino sobre o respeito, mas não quando falo sobre ele e sim a cada instante que o pratico.
Depois elas descobrem que, do outro lado do muro azul, logo após cruzar a ponte há ainda um mundo inteiro a ser reinventado.
E é pra lá que elas vão. Para fora do muro azul...
Só que elas vão tendo passado pela ponte e, portanto por mim. Deixam-me, invariavelmente, melhor do que era antes de conhecê-las e pretendo, com a força da minha alma, que levem consigo a lembrança de terem estado com alguém que foi, com elas e para elas, o melhor que podia ser.
É assim, querido diário que eu começo todos os meus dias. Com a possibilidade de aprender tudo o que eu ainda não sei e vir a ser alguém melhor do que aquela que vi dormir na noite anterior.
Sobra-me pouco a mais para querer da vida!