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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A demora que na rapidez mora

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Era uma vez, uma menina que, enquanto se fazia psicóloga, acabou por se tornar mulher.

Rápido.

Com o rosto emoldurado de largos cachos, que só lhe faziam a beleza realçar, ela cresceu rápido demais.

Demais.

De acordo com a urgência que lhe trancava o peito, mal percebeu que as linhas retas moravam dentro das formas espiraladas que trazia pendurada na cabeça. Seus cachos eram muito mais que um simples capricho da genética.

Capricho.

Movimentando-se vigorosamente, passou desatenta ao valor das curvas. Já estas, por sua vez, nunca mais se esqueceram dela.

Esquecimento.

A mulher, sem saber, era obstinadamente perseguida pelo próprio destino.

Próprio.

E apavorada com aquilo que já não mais se escondia, passou a alma a vazar-lhe pelos poros.

Dor.

Antes fosse pelos olhos...

Lágrimas.

Ela nem sequer suspeitava que a verdadeira demora de sua vida, a única de todas pela qual poderia acertadamente se lastimar, era a constatação de que ela precisava, isso sim urgentemente, aprender a chorar!

Encontro na hora.

domingo, 25 de julho de 2010

Felicidade

Enquanto nasciam nela essas palavras, surpreendemente, deu-se conta do quanto não tinha palavras sobre a felicidade. E, que não as tinha, por um motivo obvio: nunca tinha, de fato, estado com ela. Carregava, ao longo de sua história vivida, o peso de concepções equivocadas construídas  durante o percurso realizado, e sem o qual, entretanto, ela jamais conseguiria ser - se realmente feliz. Só lhe restava continuar o que há muito tinha começado. Num primeiro momento, a felicidade soou-lhe estranha. Tão desconhecida, que ficava impossível nela reconhecer-se. Sim, ela já havia sido feliz, mas dar de cara com a felicidade era diferente de ser feliz, pois se tratava da liberdade da escolha de ser. Entendeu, verdadeiramente, nesse momento, aquelas frases clichês que dizem que só tem a felicidade quem vai buscá-la. A verdadeira felicidade é árdua e exige esforço por parte daqueles que a perseguem. Sua dimensão, no início, amedronta. É um caminho sem volta e, que você só sabe que vale a pena, depois de adentrá-lo. Para fazê-lo, porém, é preciso arriscar-se e, para correr o risco é preciso coragem, porque o medo já se tem naturalmente. Foi assim, completamente ao seu tempo, que ela se permitiu começar. E, como não poderia ser diferente, começou pelo começo. Deixou cair, dolorosamente, o pseudo-ser-si-mesma para assumir a ignorância de si. Foi somente ao se deparar com seu insignificante tamanho, que se deu conta de sua tamanha amplitude. Apavorou-se, só não se sabe ao certo, se por saber de si tão pequena ou tão ampla. Admitiu a si mesma a nova possibilidade que se apresentava. Foi. E, sem ao menos ter gestado uma criança, mas grávida da própria alma descobriu a felicidade da dor de parto: era o que doía que fazia existir e era, só depois de viver a dor até o fim, que ela delicadamente viu-se a tocar naquilo que mais originalmente lhe pertencia: o começo da história.
Acalmou-se, enfim.
E acomodou-se com a felicidade.




terça-feira, 27 de abril de 2010

São Paulo, 27 de abril de 2.010.



Amiga querida,



Reencontrar seu olhar hoje me inquietou novamente. Eu sei, e muito, por onde você está passando. E talvez só o saiba por ter tido, na hora em que as paredes da minha casa sumiram, uma amiga ao telefone. Nem sei se já contei a ela o que aquela ligação, naquela hora, me representou. Mas o que nos importa agora é que ela ligou. As paredes desmoronavam lentamente, uma a uma, mas restou nas mãos o telefone. Pra pedir um socorro, que fosse... Dali em diante meus olhos perderam o brilho. Lembro-me de ver dias de sol completamente cinzas. A janela fechada, a alma perdida, o coração fraco, a morte! É só assim que a gente renasce: morrendo. Mas morrer dá certo desespero, sabe? Então você nega e fica ali, feito cinza. Acho que é por isso que eu não gosto desta cor. Só que eu sou teimosa de dar medo e desistir é um conceito que eu tento diariamente incluir no meu repertório, mas a minha própria teimosia não permite. Fiquei lá estirada no escuro até que um dia, depois de muita chuva os dias de sol foram voltando, vagarosamente, a terem o devido brilho. E eu, depois de longo tempo abri uma fresta da janela para olhar. Desde este dia, venho reaprendendo a caminhar. Só que agora deixando pra trás pegadas legitimamente minhas. As pernas algumas vezes ainda se ressentem e cansam. Só que agora elas têm força suficiente para sentarem-se antes de cair.Talvez este seja, o motivo pelo qual eu tenha errado a porta ontem e dado de cara com você e tenha feito o que eu fiz. Eu posso e vou segurar a sua mão na escuridão até você conseguir abrir, pelo menos, uma fresta da janela novamente. Beijo grande.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

São Paulo, 26 de abril de 2.010.


Querida amiga,



Estou mandando esta carta para dizer-lhe algumas palavras.
Eu já chorei o choro que você chorou hoje.
Reconheci nos seus olhos a dor que já doeu em mim.
Por isso, se quiser, pode contar comigo.


Eu gosto muito de você e, mesmo que você não chame, estarei sempre por perto.
Não te perguntarei sobre nada. Sei como falar torna-se um ato de extremo esforço nesse momento.
Mas, ainda assim, estarei com os ouvidos sempre abertos para qualquer som emitido pela sua delicada voz.


Na hora do tombo, a gente dá com a cara no chão e chora porque acha que não vai saber ou conseguir levantar.
Depois a gente se conforma de já estar no nível mais baixo que nos é possível chegar, e relaxamos.
Ao relaxar descansamos.
Acabamos por ficar tão familiarizados com o chão que logo começamos a perceber que é possível se movimentar.
Com poucos movimentos fazemos deste mesmo chão, o primeiro degrau para se apoiar e levantar.
Uma vez de pé, reaprenderá a andar. O processo é lento e trabalhoso, mas aos poucos, irá se dando conta das pernas que têm e dos possíveis passos que poder dar.
Talvez eles sejam menores do que, de fato, os imaginava. Mesmo assim se sentirá estranhamente livre. E feliz!


Nós já somos companheiras de viagem, mesmo que nunca mais falemos sobre o assunto.


Estou por perto.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A costureira

Era uma vez uma costureira.
Porque ela se fez costureira não se sabe a resposta.
Reside nesta pergunta o mistério que não sabemos se um dia veremos desvendado.
Toda e qualquer tentativa de resolução, até agora, não passou de mera suposição.
Para que se fez costureira, talvez um dia, ela alcance a resposta.
O fato é que ela costurava incessantemente. 
Mas só depois de um tempo adiantado, deu-se conta de costureira ser.
Disfarçou-se demasiadamente pelo caminho.
Quase se perdeu entre pontos inusitados, mas salvou-se a tempo por ter estado sempre presa a um único fio; a ânsia de ser.
No dia que finalmente pode revisitar-se sem reservas, conseguiu desembolar o novelo para fazer uso do imenso e indispensável fio que necessitava para a nova costura que pretendia fazer.
Desesperou-se ao se deparar com o trabalho de uma vida toda desfeito.
Fios soltos para todos os lados.
Chorou ao repassar os alinhavos, mas entregou-se por fim.
Entre lágrimas, deu-se conta da agulha que na mão lhe sobrara.
Num dia despretensioso, de um tempo com tempo, encontrou-se com mais duas artesãs.
Pôs- se de pé e fez seguir.
Embora fizessem uso de diferentes matérias primas, as três artesãs buscavam uma mesma obra de arte como produção: reinventar-se.
Foi assim, em boa companhia, que a costureira encorajou-se a recomeçar: pôs-se a costurar com os fios soltos sua nova invenção.
De tanto costurar, deu-se conta, um dia, que costureira era e que justamente aí, na simples descoberta, habitava aquilo que por tanto tempo ela procurava ser.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Oi Mari,



Estava com saudades e fiquei feliz em receber sua carta hoje.

Suas notícias soaram-me um tanto relaxante. Deixaram-me quentinha e confortável.

Só hoje, depois de ter lido sua carta, fui aos poucos me apropriando da dimensão das escolhas que a gente faz na vida.

Eu não tenho, nesse momento, como encontrar as palavras precisas para dizer quão contornável foi poder ler-me nas suas. Obrigada, de verdade.

De fato trabalho alimentando a alma, não vendendo-a, mas por continuar escolhendo a mesma escolha a cada novo dia, eu também vou aprendendo que para isso sempre há de se deixar as outras tantas escolhas que não foram feitas..

Acordo, e uma das primeiras coisas que me vêm à cabeça é qual a vida que eu quero pra mim.

Ainda que apenas intente idealizar essa questão, sou diretamente lançada ao que de fato, para mim, é na vida valoroso.

Nossa! Uma canseira danada... Esforços que não acabam mais. Viagem que eu não vejo o fim.

Esforço existencial mesmo sabe?

E eu também queria, além do que quero todos os dias, algumas das outras escolhas  que deixo de querer quando faço esta. Movimento intermitente de aprender “abrir mão” para simplesmente ser o que eu quero ter pra minha vida.

É disso que eu vivo amiga.

Uma escolha diária, muito trabalho e eu na recompensa.

Gosto do outro. Tanto, que pensei em tempos passados, que os valorizava mais do que a mim.

No caminho eu já aprendi que somente seremos em companhia do outro. Tanto quanto eu for o melhor de mim, o melhor do outro a ele oferecerei..

Percebi que em todas as instâncias somos nós, os únicos realmente capazes de nos fazermos “sendo” realizados.

Se o mundo parasse, meu último pensamento seria: apesar de não ter assistido ao filme que eu tanto queria, apesar de ter dado um super furo com a Pati hoje e apesar das muitas coisas que deixei por fazer, até hoje eu fui feliz!

Muito obrigada pela companhia durante a trajetória.

Fica claro pra mim o quanto a proximidade anda desligada da necessidade de estarmos fisicamente perto.

Bons dias de Mariana pra você.

Beijo grande,

Thais

sexta-feira, 26 de março de 2010

Segredo



Ele era dela, mas a constatação do fato não era, definitivamente, o suficiente para que fosse reconhecido.
Ela tinha o segredo agora, mas não o tivera desde sempre. Foi só após a citada revelação que ele pôde enfim, mostrar-se em segredo.
Ele estava nela, mas tão secreto em si mesmo que era, precisou de outro alguém para desvendá-lo.
Ela entregou a caixinha fechada e a teve de volta entreaberta.
Segredo que era protegia-se da luz escancarada.
Por entre os pequenos raios de baixa luminosidade com que alguém clareara a caixinha agora, ela conseguira, por fim, deleitar-se na escuridão do segredo que iluminava...

sábado, 6 de março de 2010

O menino rei

Era uma vez um menino que sonhou em ser valente. E só de sonhar, assim se fez.
Tão valente que era, esqueceu-se de sonhar também com a outra metade da valentia, a fragilidade.
O menino acordou achando que era ele o único herói a precisar de um descanso e assim, sentiu-se menos herói.

Ficou pela metade. E com meio olho somente, o menino não pôde ver...

Não viu que só se é valente por inteiro quando também se é frágil.
Deixou de enxergar que sempre que encontrava com os outros heróis e eles estavam prontos pra batalha, era porque em algum outro momento já haviam deixado repousar em si sua fragilidade.
E por não perceber isso, justamente no momento em que estava com a melhor espada na mão, o menino achou que não era mais tão guerreiro.
Sentiu-se acuado e recolheu-se silenciosamente.
Temia mostrar ao mundo o que o mundo já sabia: todo herói tem o seu dia de menino.
Guardou as espadas numa redoma como recordação do herói que ele pensava não mais poder ser.

De tão humano o herói menino até se esqueceu que humano ele era.

Cresceu uma época  e depois de crescer reinventou-se sonhando em ser rei.
Sonhou um sonho muito bem planejado, mas esqueceu-se apenas de sonhar com o dia em que aprenderia sê-lo.

Sob as mais belas vestimentas, preparadas as pressas por habilidosas costureiras, o menino pensou que estava pronto e se pôs de rei o mais rápido que pôde.
No seu palácio divertiu-se sem pudores.

Acontece que como o menino não sonhara com o dia de aprender, não sabia que apenas meio olho estava a lhe servir. Mais uma vez ele não conseguiu ver.

Escapou-lhe das retinas a delicada condução que a vida lhe fez até esse indispensável passo para a realização do sonho: o dia de aprender a ser rei.

O menino encolheu.

Imediatamente o céu pôs-se a chorar.

Cada gota de chuva que caia impregnava o mundo de um lamento dolorido, pois este carecia de heróis e reis que fossem um pouco mais valentes e para isso só sendo tão inteiros quanto os homens corajosos que o mundo, lamentoso, aguardava quase impacientemente.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Se a gratidão falasse, com certeza essas seriam suas palavras

Amado amigo,

Eu ainda estou tentando entender tudo isso...

Ouço agora, com clareza, tudo o que vc não me disse e todas as palavras que estavam escondidas no intervalos das frases que dissemos um ao outro.

Eu sei que vc está com Deus, seja ele quem for. Sei também que, apesar da dor que me corrói a alma nesse momento, você cumpriu o que tinha a cumprir com muita dignidade e invejável coragem.

Eu não vou fazer barulho e nem me meter a besta em perguntar.

Embreagada pelo som do teu sorriso e emaranhada na teia de tuas palavras, seguirei adiante.

Silenciosa.

Ainda que todas as certezas me apanhem, eu jamais desistirei!

Na girada, o chão trincou e o mundo desabou.

Eu dormi e acordei e o pesadelo não acabou.

Eu fui. Mas voltei!

Peguei a ampulheta e a revirei.

"Sonho que se lembra é aquele que se acorda na metade. E o que foi até o fim, não é sonho. É realidade."*


Seguiremos juntos. Você é parte de mim. Agradecerei todos os dias da minha existência por ter sido direcionada, pela vida, à você. Ainda que, de certa maneira, eu o perca agora, o que ganhei de você jamais perderei.

E te devolverei.

Honrarei esses ensinamentos com toda a força da minha alma.

Vou reconstruir o meu mundo pra viver com você de um jeito diferente. Com menos pesadelo e mais consciência.


E se alguém me perguntar, responderei orgulhosa:

“É isso mesmo: Eu sonho, e daí?”
   
                                                                                                                                                    Para o Tizão (in memoriam)

* NARDI, Rcardo Ortiz de. Quest'anno è mio! . http://tizao.blogspot.com/. (15/01/10)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Para o Tizão


Inúmeras vezes, enquanto ando pelas ruas, as palavras brincam dentro de mim sem censura alguma.
Elas dançam. Pulam de um lado a outro. Chegam juntas, umas das outras, em pequenas frases.
E basta apenas o instante seguinte para que se reorganizem de forma jamais vista.
Dai-me as palavras!
É assim que elas inventam nomes novos para sentimentos velhos.
Tão antigos quanto eu e você...
O que seria de nós, meu amigo, sem as nossas palavras? Que meio encontraríamos nós, para levar à comunhão as nossas almas?
Tudo bem que não troquemos palavras sobre o que de fato gostaríamos de falar. Isto pouco nos faz falta, porque na verdade o que mais nos diz respeito é justamente o intervalo que há entre elas.
Você ouviu o que eu não disse?
Não há equilíbrio para certas pessoas... Somente a tensão do desequilíbrio as fazem vivas.
Há no caminho do meio algo insosso. Falta justamente o sal que abre o sabor, o azedo que faz explodir a saliva escondida na boca...
Só serve para o caminho do meio aquele que não sabe o mal que guarda em si enquanto escolhe praticar o bem.
Há, no caminho dos desequilibrados, apenas a possibilidade do bom posicionamento.
Simples: raízes na terra e copa aos céus.
As flores?
Deixe-as ao vento...