terça-feira, 23 de maio de 2017
Há tempos ela vinha vivendo
de sobressaltos.
Eram pontuais,
mas intensos.
Levavam-lhe o coração à boca
e a lágrima aos olhos.
Destoavam da cotidiana alegria com que vivia seus dias
e a entristeciam.
Atravessavam repentinamente sua alma,
apesar dela e de quem ela escolhera ser.
Talvez, por isso, apesar de intenso, o coração lhe batia frio.
Entre escassas alternativas, decidiu acolher em si a frieza que lhe fora plantada por outros.
E acolheu, quase sem querer,
também o desamor.
Pela primeira vez.
quarta-feira, 17 de maio de 2017
Fragmentos de um livro que nunca existiu
O começo,
Um dia ela o amou e o quis como queria a si própria. Deu-se à ele, simplesmente. Deu-se em ser com ele melhor do que era só. Fez dele, com o amor que tinha, passageiro de si.
o meio,
Ele não compreendeu e a perdeu de vista, o que tempo depois ela viria a se perguntar se algum dia ele havia sido com ela, mas o que ocorreu é que sem ele ela também perdeu-se de si. E essa foi a maior dor de todas.
E o fim.
Ela doeu até morrer, mas também para a morte entregou-se. Esse foi o único jeito que encontrou de fazer-se viva.
segunda-feira, 9 de maio de 2016
Sobre a gratidão
Obrigada
minhas amadas, por serem minhas filhas.
Obrigada
por me impelirem a ser uma pessoa melhor todos os dias.
É por vocês que eu
mantenho viva a esperança de um mundo mais amoroso, com espaço legítimo
para a diversidade e honestidade, o que também me faz viva.
É
para vocês que eu amo cada criança que cruza o meu caminho, que tento não perder as oportunidades que tenho para ser gentil e que me dedico a saber de mim; para legitimamente libertá-las para que saibam sobre si.
É por vocês, que me proponho ao exercício de lançar-me a mim mesma por mais riscos que isso possa oferecer. E isso me faz capaz de transformações jamais imaginadas, embora tenham sido desde sempre sonhadas...
Ser
mãe de vocês é uma honra e um presente! 💖
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Flagrante
Ela tinha caminhado muito para chegar onde sentia-se estando.
Logo que chegara, dera-se conta de como até então estava apenas começando.
Ela, uma vez, sonhara-se mãe amamentando.
Absorveu-se em si mesma e aconteceu-lhe que não era mais a mesma.
Por onde então andaria o si depois de perder- se dela mesma?
Incomodou-se com a forma como tinha conhecido as palavras, e por não encontrar mais a si mesma naquelas com as quais um dia contou-se, desencantou-se delas.
Espaços infinitos de silêncio abriram-se em sua alma.
Silenciosamente acolheu no ventre sua menina.
E mesmo sem palavras, foi flagrada gestando.
Silenciosamente acolheu no ventre sua menina.
E mesmo sem palavras, foi flagrada gestando.
sábado, 21 de abril de 2012
domingo, 18 de setembro de 2011
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Eu sou professora.
Ontem fui a um encontro com Peter Moss, professor pesquisador da Universidade de Londres.
Antes de ontem eu não o conhecia e o que me levou ao tal encontro foi o seu tema: a Educação Infantil como Projeto Ético e Político.
Todas essas palavras são do meu mais sincero interesse.
Durante o encontro tivemos a notícia de que o projeto de piso salarial dos professores tinha sido aprovado. Causou certa emoção.
Nós, que lá estávamos, pensávamos juntos sobre a Educação das nossas crianças.
Era um inglês que nos falava e que, de alguma maneira, nos dizia que as nossas crianças também eram as crianças dele.
Compartilhamos, por algumas horas, ideias sobre como colaborar para que as minhas, as suas, ou as nossas crianças cresçam e se formem, principalmente, como bons seres humanos.
Nosso mundo está carente deles.
Falamos da escola não como espaço de reprodução da sociedade, mas como um lugar de reinvenção da democracia.
Falamos de diálogo, encontro e interdependência. Ninguém existe sozinho. Um ser humano se faz de outro, ou muitos outros, seres humanos. É só assim que perpetuaremos a espécie.
Eu escolhi ser professora interessada, de alguma maneira, no meu próprio bem estar: o de viver em um mundo mais digno.
Eu escolhi ser professora porque acho um privilégio, dentre todos os seres que compõem essa imensa natureza, ter nascido um ser humano.
Fui às crianças por que são elas quem mais sabem sobre o assunto. E para oferecer-lhes uma troca a altura, passei a esforçar-me, diariamente, para ser um adulto merecedor de conviver com crianças em sua mais tenra idade.
Ontem, de alguma maneira, eu zelei pelas crianças. Hoje, chorei por elas.
Eu ainda não tenho filhos, mas as crianças das famílias do Rio de Janeiro são também as minhas crianças. E foram brutalmente assassinadas dentro de uma escola, lugar onde eu também passo a maior parte do meu tempo e exerço meu maior entusiasmo pela vida.
Depois da notícia fui subitamente invadida por uma perplexidade muda.
Marcadores:
Movimentos da alma,
Pequenos posicionamentos
quinta-feira, 24 de março de 2011
Palavreando
Era atraída, no começo dos tempos, pela palavra justiça.
Trilhou o melhor caminho que conseguiu negociar com o próprio destino.
Deparou-se com o justo e suas cabíveis diferenças.
Soube melhor daquela palavra e felicitou-se por não pertencer à lei.
Pisou à frente do que sempre fora.
À ela coube um caminho maior: tempo de desembrulhar-se escancaradamente.
Só ao saber de si teria alguma possibilidade de saber do outro.
Quando encontrou seu lugar descobriu muitos outros. Dos outros.
Mesmo sem saber, ela sabia: nascera da ética.
Gostou muito das novas palavras e acabou transformando-se com elas.
Aprendeu da possibilidade e viu-se, assim, militante da palavra justeza.
Trilhou o melhor caminho que conseguiu negociar com o próprio destino.
Deparou-se com o justo e suas cabíveis diferenças.
Soube melhor daquela palavra e felicitou-se por não pertencer à lei.
Pisou à frente do que sempre fora.
À ela coube um caminho maior: tempo de desembrulhar-se escancaradamente.
Só ao saber de si teria alguma possibilidade de saber do outro.
Quando encontrou seu lugar descobriu muitos outros. Dos outros.
Mesmo sem saber, ela sabia: nascera da ética.
Gostou muito das novas palavras e acabou transformando-se com elas.
Aprendeu da possibilidade e viu-se, assim, militante da palavra justeza.
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Movimentos da alma,
Pequenos posicionamentos
quinta-feira, 17 de março de 2011
sonho poético - Martha Barros
Era tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo no coração, que ela perdeu as palavras. Perdeu-se da palavra. Demorou a escrever porque não sabia ainda escrever sem palavras. Sem as palavras ficava só a sensação. Desencontrou os acentos, e a falta da acentuação casou-lhe certa restrição. Foi preciso reencontrar o til para novamente ouvir o som do coração. Essa era a casa que ela, definitivamente, escolhera para habitar. Era esse o ritmo sob o qual pautava seu caminhar.
quarta-feira, 2 de março de 2011
Lamento
Essa noite eu dormi mal. Acordei algumas vezes.
Tive um sonho ruim. Daqueles que você agradece quando acorda.
Durante o dia tentei, em vão, lembrar-me das imagens.
Mas estava embaraçada nas sensações.
Espécie de elaboração avessa: a realidade do sonho.
Tive um sonho ruim. Daqueles que você agradece quando acorda.
Durante o dia tentei, em vão, lembrar-me das imagens.
Mas estava embaraçada nas sensações.
Espécie de elaboração avessa: a realidade do sonho.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
No meio de um devaneio, de tao perdida quase encontrou-se.
Ela buscava o coracao da palavra no pulsar do proprio coracao.
Realizou que encontrar as palavras do pulsar seria como escrever sem acentuar.
Algo sobre o qual nao se pode ou nao se deve escrever.
Ou, se cometer a ousadia de faze-lo, ficaria a escrita pelo meio.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Ciranda
Dá um desespero danado transformar.
Principalmente quando a transformação vem do coração.
Não há tempo para a emoção,
Passou despercebida qualquer possibilidade de razão.
Tomou o peito todo com a força da interrogação que há na vida.
Eu deito tremulamente as palavras sobre o papel como única saída possível de apreender o que de mim em mim acontece.
Duas de uma.
Ou uma de duas, se você preferir.
Uma de fato. Duas acontescencias.
Primeiro o coração. Segundo os ouvidos.
Silencio imperial.
Só palavras aparecem desenhando-se em mim, assegurando não tanto a minha essência, mas essencialmente minha existência.
Balanço-me em uma movimentada corda de letras acumuladas.
E, estranhamente, me impulsiono no vácuo do espaço em branco entre elas.
Ciranda de pensamentos do silêncio.
Principalmente quando a transformação vem do coração.
Não há tempo para a emoção,
Passou despercebida qualquer possibilidade de razão.
Tomou o peito todo com a força da interrogação que há na vida.
Eu deito tremulamente as palavras sobre o papel como única saída possível de apreender o que de mim em mim acontece.
Duas de uma.
Ou uma de duas, se você preferir.
Uma de fato. Duas acontescencias.
Primeiro o coração. Segundo os ouvidos.
Silencio imperial.
Só palavras aparecem desenhando-se em mim, assegurando não tanto a minha essência, mas essencialmente minha existência.
Balanço-me em uma movimentada corda de letras acumuladas.
E, estranhamente, me impulsiono no vácuo do espaço em branco entre elas.
Ciranda de pensamentos do silêncio.
sábado, 25 de dezembro de 2010
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Brincadeira de menina
Era uma vez, uma menina que passava a vida a contemplar. E da vida, ela contemplava o que cabia no microscópio. Tinha um olhar pequeno, curioso e colorido. A menina nem sabia do seu olhar porque o que dele lhe interessava ela não olhava, apenas saboreava. Assim ela passou a vida, até que em uma de suas idas ao Doutor, a menina espantou-se ao ser, por ele, percebida. Doutor notou o olhar da menina. A menina, depois de ver os olhos do Doutor, saiu olhando diferente.E, a partir da amplidão do próprio olhar, a menina amadureceu. Pura metamorfose de si mesma. Brincou de laboratoriar com os próprios sonhos. E, sonhando a menina que fora, pôde tornar-se a mulher que é! E depois cresceu.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Preciosa justeza
A menina dos balões encantados - Sandra Guinle
Pairava sobre a mesa, um livro com a história da beleza
Reunidas em torno dela, três pequenas realezas.
Cada uma dona de sua própria inteireza
Cada uma dona de sua própria inteireza
Deixaram perdido no ar um discreto cheiro de grandezas.
No intervalo das pequenas gotas de precisão
Era possível ouvir lhes bater no peito o coração.
A precisa emoção da justa posição.
Eis a beleza da preciosa justeza.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Interferências do ar
Ciranda Mágica - Sandra Guinle
Começamos a pensar nas despedidas para delas cuidar.
E nessa aterrisagem do fim voltamos a vê-los brincar.
Em busca da melhor aterrisagem nos perguntavam, a todo instante, como voar.
Partimos juntos e fomos sobre a tal pergunta pesquisar.
Estavam em pleno voo enquanto nos pusemos a observar.
Encontravam-se lá as meninas na ponta dos pés a saltitar.
Os meninos faziam as capas balançarem até dançar.
Juntos subiam na jabuticabeira para, depois, de lá de cima pular.
E para as tentativas mais ousadas, teve até susto de fazer a professora perder o ar.
Mas entre fadas e heróis ainda havia muito que buscar.
As pistas de carrinhos nós fomos pegar...
Muita força fez o carrinho derrapar.
Alta velocidade o fez, num belo voo, planar.
Empurrá-los com força só fez o desafio aumentar.
E a cada voo levantado era necessário para a pista regressar.
Juntos fomos descobrindo as diferentes possibilidades de aterrisar.
Teve até uma turma que quis escrever um livro para uma história contar.
Maneira sabida de registrar...
Passo importante para o conhecimento transformar!
E na transformação, o imóvel disco de madeira começou a girar.
Os bichos, antes presos no papel, quiseram se libertar.
Mas pra todo esse movimento foi preciso a força na mão empenhar.
Os sorrisos eram de fazer a nossa retina se enfeitar.
A lente da câmera só fez a imagem em nosso ouvido sussurrar:
Eram das crianças todo aquele pensar!
Às professoras coube a arte de revelar.
E a melhor revelação fez a consciência documentar:
Embriagadas pelo valor de ensinar.
Elucidaram já não serem mais as mesmas que eram antes de tudo brotar.
A proximidade do fim as trouxe também a perspectiva de recomeçar.
Sabendo as crianças como aterrisar, poderiam agora com liberdade voar.
E no meu coração, estejam certos, ficará para sempre um carrossel a rodar!
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Praticando a teoria ou teorizando a prática?
.
Angústia e só, poderia ser simplesmente.
Bastaria- me a solidão dela remanescente.
Aconteceu- me diferente: leitura subjacente.
O coração? Decrescente.
Tudo em forma de uma pequena escrita indecente!
Angústia e só, poderia ser simplesmente.
Bastaria- me a solidão dela remanescente.
Aconteceu- me diferente: leitura subjacente.
O coração? Decrescente.
Tudo em forma de uma pequena escrita indecente!
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Diário de bordo (Confissão)
.
Desde ontem as confissões têm-se feito insistentemente presentes no meu caminho.
Não as minhas.
Essas eu farei agora.
As confissões acontecidas, porém, entrelaçaram-se nos acontecimentos da minha própria confissão.
A partir de outras, com a de vocês, mora a minha.
Eu.
Desde que me mudei, dentre as aquisições que mais fiz para casa, são as lâmpadas que encabeçam a lista.
Eu sempre soube sob qual luz gostava de morar, mas demorei em aprender a escolhê-la.
E depois de escolhê-la, em buscá-la. Eu demorei, mas cheguei.
Bem na época.
Eu confesso:
Hoje o amor correu pelas veias, a felicidade oxigenou o cérebro e o cansaço rendeu o corpo.
Sem planejamento algum, me vi sentada com três pessoas essenciais na minha vida. Estávamos juntas na sala da minha casa e éramos quatro. Mais a Maria.
E olhá-las juntas, tão perto e tão de perto teve um sabor inexplicável.
Algo como deixar de ser uma ilha imóvel para desfrutar da liberdade de uma baleia.
Ainda que ela carregue certa densidade, movimenta-se com justa liberdade.
Carrega consigo apenas o tamanho necessário.
Boa noite.
Desde ontem as confissões têm-se feito insistentemente presentes no meu caminho.
Não as minhas.
Essas eu farei agora.
As confissões acontecidas, porém, entrelaçaram-se nos acontecimentos da minha própria confissão.
A partir de outras, com a de vocês, mora a minha.
Eu.
Desde que me mudei, dentre as aquisições que mais fiz para casa, são as lâmpadas que encabeçam a lista.
Eu sempre soube sob qual luz gostava de morar, mas demorei em aprender a escolhê-la.
E depois de escolhê-la, em buscá-la. Eu demorei, mas cheguei.
Bem na época.
Eu confesso:
Hoje o amor correu pelas veias, a felicidade oxigenou o cérebro e o cansaço rendeu o corpo.
Sem planejamento algum, me vi sentada com três pessoas essenciais na minha vida. Estávamos juntas na sala da minha casa e éramos quatro. Mais a Maria.
E olhá-las juntas, tão perto e tão de perto teve um sabor inexplicável.
Algo como deixar de ser uma ilha imóvel para desfrutar da liberdade de uma baleia.
Ainda que ela carregue certa densidade, movimenta-se com justa liberdade.
Carrega consigo apenas o tamanho necessário.
Boa noite.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Insônia
.
É assim quando o sonho encontra a realidade
Primeiro vai o sono
Depois vem a felicidade
Pode ser de manhã, pode ser de madrugada
Amarelo de sol ou azul de noite estrelada
No fim da rua começa a estrada
Embriagada de cansaço do corpo a alma repousa calma
A palavra, desenhada de pensamentos, está calada
No vão entre o ruído e o silêncio sigo acordada.
É assim quando o sonho encontra a realidade
Primeiro vai o sono
Depois vem a felicidade
Pode ser de manhã, pode ser de madrugada
Amarelo de sol ou azul de noite estrelada
No fim da rua começa a estrada
Embriagada de cansaço do corpo a alma repousa calma
A palavra, desenhada de pensamentos, está calada
No vão entre o ruído e o silêncio sigo acordada.
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